A Cria do Oitavo Dia
conto publicado originalmente na coletânea "Sangue, Suor e Palavras Mal Dormidas", da Editora Big Time, no ano de 2012, organizada e editada por Antonio Marcos Cavalheiro.
Dentro de seu casulo estava.
Protegida por todas paredes da casa;
sob seus olhos, o nada.
Duas pupilas sólidas a levavam por lugares sem saída.
Sua escolha.
Nada mais valeria a pena se não fosse daquele jeito.
Manjedoura dum deserto visceral,
nascida por entre órbitas de rebentação como doze trabalhos.
Um oceano devastado por geleiras.
O mesmo que gritava à janela de seu apartamento.
Moldava a seda formando uma cadeira.
Apenas o quadro lhe fazia companhia.
Comprado pelo simples achar que as pessoas não o entendiam.
A memória em ricochete,
do dia em que o viu pela primeira vez,
sequestrado por pretensos intelectuais do comércio salivando obviedades.
Cães do mato desconheciam as costuras das cálidas cores.
Ela ria.
Sabia que não era uma questão de admiração.
Permanecer dentro dele era primordial. Gostava de encarar a pintura,
com suas cores. Tentar permanecer maior tempo possível dentro delas.
Calava suas paranoias; acalmava seu corpo latente.
Hoje caminharia por dentro da tela.
No segundo que fechou a pálpebra pela terceira vez colidiu o quadro.
Estacionou o endoesqueleto à parede morna e sudorípara.
Fixamente marcando as margens da tela, desacelerou.
Pulmões cheios, amarra o escafandro.
Checa os fios, salta ao mar de tinta. Unem-se mãos, traços e cores.
Verdes neolíticos, vermelhos e azuis. Os brônquios cheios de oxigênio eletrolítico, absorvidos pelos alvéolos. Colorem cada hematose pulmonar,
em contrastes entre complementares.
Torso nu tinge cada centímetro de epiderme,
mudando matiz a cada batimento.
Finalmente mergulhou no vasto mar em névoa arroxeada.
Água brisa inunda seu tubo de oxigênio. Flutua extremo.
Tem controle do mundo a sua volta;
rainha de copas submarina, imersa.
Um corpo a dissolver-se, solidificando-se por seus comandos.
Ousou tomar formas e retirar pedaços;
ser algo a mais dentro da água. Mãos extensões de molde,
a deixar sua alma em mosaico.
Metamórfica:
Observa o local onde nadar não é mais necessário,
pois caminha pelo fundo do oceano.
Pelo banco de corais uma pequena cidade era vista na camada mais profunda,
alguns centímetros da borda inferior esquerda do quadro.
Ruas calmas e carros astrais circulavam sem escapamento.
Abriam passagem sempre que um cardume atravessava a camada de cimento:
— Formada por nuvens pavimentares.
Amanda observava o fio que trazia o ar pairando na borda do quadro.
Ela era ponteiro de tempo e controlava tudo.
Esse era o pensamento naquele instante.
Passando por entre as casas, viu seu jardim. O mesmo do seu nascimento.
Olhou novamente e viu seu pai em furor nos braços de Anamaria.
Amaram-se pelo jardim até a madrugada do terceiro dia.
Trocaram juras de amor que nunca tiveram.
Ao verem a filha, acenaram.
Fugiram nas costas de cavalos marinhos cocainômanos,
que aguardavam amarrados por algas na cerca da casa.
Passa pela varanda e corre por entre os pinheiros,
livre de amarras.
Rápida, sentia todo o ar passar por cada poro;
cada gota do oceano fundia-se ao suor.
Atravessa sua antiga casa e sente todo o desespero ir embora.
A calma instalara-se de maneira definitiva.
Como amiga outrora.
Estava salva enfim.
No fim rua,
duas cascatas de estrelas marinhas.
Gotas descendentes a flagelar toda extensão dos rochedos.
A cada pancada um pedaço do grosso tecido conjuntivo tornava-se lama.
O pedaço estelar desabava em chamas até mutar-se numa forma sólida e ocre.
No chão, os fragmentos rasgavam o tecido da terra ao redor das cachoeiras.
Ela atravessa as quedas.
Deveria guiar seu escafandro mais fundo.
Escuta pela última vez àquela velha voz dizer eu te amo.
O chão, árido.
Estende a calma enquanto renasce o deserto a sua frente.
Ele, tão calmo quanto ela.
Incerta com a sensação de paz sobre sua vida passada;
Determinada em caminhar, secou os pés na entrada.
Por entre as flores de pedra avistou o prédio da velha escola.
Ao passar pela construção, estudantes apareciam em cada janela.
O prédio aos blocos,
nascia por entre as nuvens de poeira seca.
Paredes em coloração amarelada pela ação dos ventos,
cheias de poças de areia;
Como se cada uma segurasse um pedaço dos tijolos.
Despedaçavam-se por entre mosaicos assimétricos.
Uma escola sem muros ou pátios.
Seco s ecos.
Os corredores hotel de temporada morto em uma montanha gelada.
Brisa aos urros pelas quinas das portas entreabertas,
envernizadas por calamidades.
Cada uma delas possuia uma placa com números fora da sequência esperada;
Em um corredor com salas de aula.
Em cada uma um aluno realizava uma tarefa difente.
Todos uniformizados em sarja azulada, meias vermelhas e sapatos pretos.
Uma menina de olhos lágrimas costurava um vestido verde com fitas.
Quando pronto, ele desfazia-se por entre o ar.
Ela então recomeçava a costurá-lo.
Ela não sabe o que aconteceu, disse uma voz açúcar.
A escafandrista estremece;
Não vê ninguém.
Aproxima-se da menina.
Ela lhe devolve os olhos.
Hoje meu bloco vai sair e não serei sozinha. Serei maior estandarte; a menina responde uma pergunta nunca feita.
Em outra sala um menino tatuado.
Os desenhos contorcem a pele como plástico. Querem deixar o corpo.
Sorrindo, fecha os olhos a cada tentativa da tinta rasgar a pele.
Um lenço distraído lhe impede de gritar através da dor.
Em sua mão direita a máquina em agulhas e tinta.
Desenha em uma pele sintética alabastros.
Estou preparando minha mudança, ele explica. Toda minha pele desenhava o tempo, e como você pode ver, a troca não pretende tardar. O mundo jamais esquecerá desse dia, ele completa.
Uma das imagens em seu peito finalmente consegue rasgar a pele.
É uma libélula de dezoito asas.
Cada uma delas recobre um trecho de seu tronco.
A menina não entende as motivações do deserto lhe trazer essas pessoas.
Elas querem sair, estão famintas, uma vez mais a voz sem rosto.
Ela vira-se.
Não há ninguém.
Apenas um boné deixado no chão.
Sai da escola por entra areia fina. Estrelas tomam-lhe pelas mãos,
mostram os últimos sinais de aridez.
Ao longe uma voz tangencia através dos espaços entre seis pequenas serras.
Um altar geográfico.
Todas recobertas de vegetação encontrada na Mata Atlântica.
Todas em tons terrosos como lava.
Quanto mais avança ao fundo da mata, a voz torna-se familiar.
É Andy Kaufmann.
Percebe que tudo aquilo não passa de uma prisão.
Prestidigitada milimétrica para aos poucos anasalar seu pensamento.
Uma ilusão seca.
Sente o corpo acomodar o ódio e impulsionar seus pés ao retorno.
O fio do escafandro é arrancado.
Ela consegue enxergá-lo sumir na borda direita da pintura,
ouve seu bater violento na parede da sala.
Perde o resto de ar.
Grita toda a mágoa pelas narinas.
Decide então renegar a derrota ao equipamento de mergulho.
Veste o boné sujo que resgatou do chão e vai mais fundo mata adentro.
Demorou demais para chegar, cínico exclama enquanto acende um cigarro encharcado de petróleo.
Não queria te encontrar.
Ninguém quer, mas é inevitável, eu sempre estou lá.
Ele oferece o cigarro.
Não, você sabe que nunca gostei.
Você nunca gostou do seu corpo, mas sempre o usou também, aliás, eu preciso te perguntar, como é que ele aguentou tudo isso? A provocação dele era esperada. Já sei! Te fiz forte! A genética é uma das minhas maiores criações, você não acha?
Na verdade eu preciso te contar um segredo (a reposta dela seria de imediato): Meu corpo suportou porque desejei que assim fosse. Só passou por onde quis. Ele mudou porque assim foi feita a minha vontade; e não a sua.
Se eu te criei, só aguentou porque eu a fiz assim. Andy traga a fumaça em forma de crucifixos, que sangram um óleo amendoado cheio de hemácias.
A humildade não foi uma das coisas que você pregava? Ela fala fechando os punhos.
Me responde uma coisa então: Onde a humildade te levou? Ela te trouxe o que? O que seu sarcasmo ensaiado e escrito te mostrou algo? Você sabe, definitivamente sua vida não foi pautada por coisas que eu possa chamar felicidade eterna. Andy acende outro cigarro e continua: Escolhas. Eu te dei escolhas. Você não as quis. Veja bem, não que eu não tenha deleitado-me com todo esse sofrimento mas pensava que você transcenderia. Havia uma esperança. Deveria tê-la enterrado com meu desprezo. As pessoas que lhe mostrei na escola estão mortas. Arrependidas por não conseguirem terminar o que tanto desejavam quando ainda vivas. Achei que você entenderia se lhe mostrasse. Errei. Outro trago, outras cruzes. Eles estão parados no momento em que descobriram como seria viver em plenitude. A vida que nasceram para ter. Quem nasceram para ser. Você tinha tudo isso. Mesmo assim precisou enfiar a porra de uma agulha no braço e vir me visitar. Eu sempre achei que essa conversa jamais fosse necessária. Obviamente me enganei de novo.
Ela reve seu olhar com a ternura de quem vê um animal morto e perdido. Esperando que a vida lhe seja justa e acabe com seu sofrimento.
Mesmo assim,
ela,
agora ao volante,
retorna com o caminhão e passa por cima do cadáver agonizante.
Se aproxima e lhe demora um beijo.
Línguas entrelaçam por entre o sabor do filtro.
Aperta-o contra o peito.
Ouve ao longe Sinatra cantando por dentro de uma pele.
Aperta Andy mais perto do corpo.
Ele renega a falsa santificação e deixa o homem aparecer.
Ela o tem. Depois de tanto tempo. Depois de tanta morte.
Enfia a mão dentro da calça. Ele em suspensão.
Arranca um pedaço da própria virilha.
Andy assusta-se.
Então com as mãos transforma a pele em lança.
Perfura o tórax de Kaufmann com tamanha violência que ele cai.
A lâmina crava em uma das rochas ao chão impedindo o soltar-se.
Andy por favor não chore. Homens têm essa tendência de chorar ao perder o controle da história, como forma de tornarem-se inocentes vítimas e nós dois sabemos que esse não é o seu caso. Agora entendo o que você quis me dizer durante todos esses anos. Entendo todas as suas linhas tortas e todos seus salmos. Nunca desejei ver você queimar, por nenhuma das coisas que aconteceram comigo, pois foram escolhas que você me permitiu fazer e por isso eu te agradeço. Por me fazer pensar fora da roda de ratos. Dispensar todo esse cuidado comigo. Na verdade eu te amo muito mais do que você imagina. Mesmo assim você precisa morrer.
Ele acomoda-se à pedra aos joelhos, como uma reza.
Andy ajoelha no momento em que ela lhe quebra os tornozelos.
Encaixa-se como um cubo entre a pedra e o chão.
Enquanto limpa o sangue de Kaufmann em sua blusa, ela retoma o raciocínio.
Sempre será estúpida essa tua busca pela perfeição mental. Essa provação do seu grande laboratório. Se você nos criou cheios de contradições e defeitos, deveria ao menos assumir a culpa por ser um completo desleixado e irresponsável. Não soube nunca o que fazer com todo esse poder que lhe foi dado de graça.
O rosto dela beira uma resolução absoluta.
Você não lutou por nada, só chegou na frente dos demais ainda por ter herdado todo o poder do Universo. Qual a sua vantagem? Ser mais rápido em uma corrida de um só? Permanecer séculos auto admirando-se moldado seu ego em complacência? É uma aberração ideológica, mas não tão longe da natureza de suas criações ditas mais perfeitas, como eu. Uma criação que você insistiu em fazer acreditar que era a verdadeira aberração, quando na verdade a única aberração aqui é seu ego.
Ela se afasta do rosto de Andy, olha ao redor e retira o escafandro.
Respira livre.
Minha sombra confundiu todos pelos quais me apaixonei, completa. Demorei a entender o que você queria de mim quando percebi quem eu era. Dançando ao redor da felicidade sem ter nada. Mudei sua genética e por isso hoje, com você dentro do teu quadro, vou te esfregar a derrota. Sua última lição na escola foi só uma tentativa de controle que você não tem mais. Hoje transcendo essa carne podre que você pensa que criou. Hoje você não pode mais fazer o que bem entender, porque eu tomo seu onipresente. Meu mundo ao meu formato mais íntimo e mostrarei ao universo a beleza de nos transformarmos em quem realmente somos. Você nunca me criou, apenas acendeu uma fogueira pensando que me queimaria viva. Eu é que vou incendiar o mundo por cima do teu sarcasmo que morre aqui, junto ao teu cadáver.
Pega um fio de alga e amarra ao redor do pescoço dele.
O corpo do homem incendeia-se deixando apenas o pescoço morrer aos poucos. Ele chora inerte enquanto um anel de água mantém intacto seu rosto.
Salina escorre pela órbita esquerda.
A fumaça da última tragada atravessa os olhos dela. Aperta mais a alga.
Andy engasga com seu último suspiro. Sua cabeça é decapitada.
Ela submerge do quadro.
Nas mãos algas que soltaram-se enquanto a cabeça de Andy escorria pela areia. Desagua na sacada do apartamento sem perceber sangrar pelos poros.
O sangue escorre pelas arestas das grades de proteção.
Ela não sente medo. Segura de si mesma, sorri.
Devolve o toque ao sangue morno que está em suas mãos.
Levanta-se. O sangramento intensifica.
Começa a encher a sala.
Um guindaste vento entra pela sacada e a leva até o meio do cômodo.
Alagado com seu sangue.
Ela levita.
Os braços estendidos produzem luz.
Sente toda a plenitude de seu nascimento,
enquanto o líquido vermelho atinge o teto.
Paredes explodem, a lage é arrancada.
Dentro da casa um arco íris de gelatina nasce.
Daqueles que parecem rios estilizados em bolos de aniversário infantis.
Ela agora está vagarosa do lado de fora do apartamento.
As mãos alumiam o asfalto enquanto o sangramento renasce as ruas,
a colorir árvores nos jardins dos prédios vizinhos.
Do chão brotam flores.
Orquídeas multicores extravasam pelos caules.
Corroídos pelo tempo, as velhas madeiras depontam em sorrisos pétalas.
Hemáceas tomam o asfalto e dele explodem fontes.
A vida surge inadvertida
Corpos humanos multiformes, animais, plantas, alimentos, água e luz.
Homens, apavorados nas calçadas respiram essa nova vida.
O cérebro em parafuso esfacela-se como lava em correntes oceânicas frias.
Os que sobrevivem perdem a voz.
Ela tornou-se vida.
Liberta de tudo que lhe foi imposto.
Sem a dimensão da quantidade,
em suas cores mais profundas;
Aquelas que sangram.
Tem a certeza que seu corpo tomará todo o universo.
E no caso da luz desanuviar de vez,
o único alvorecer deste mundo será um pedaço do que ela é agora.
Pétala de orquídea azul.