A cura em estradas ondas

abordagem multidisciplinar no trauma / não ficção.

A cura em estradas ondas
“Eu não tenho medo de morrer, só não quero estar lá quando isso acontecer”(Woody Allen).

Quando o diretor estadunidense proferiu tal ironia, de seu feitio criador, o futuro desta oralidade navegou para além das aflições psicossomáticas que o próprio possa ter infligido em seus familiares, dado o longo e pavoroso espólio de exposição pública que sua vida pessoal perpassou. Nada obstante, descreve muito bem um dos componentes medulares na vida de qualquer pessoa afetada por uma experiência traumática.

Pesquisas recentes do Departamento de Saúde Mental da UFRJ, conduzidas pelo professor e psicólogo Ramon Reis dos Santos Pereira, mostram que o elemento primordial da frase dita por Allen, a dissociação, talvez seja a essência do trauma.

Seu mecanismo utiliza a semântica da divisão e fragmentação em uma experiência avassaladora, fazendo com que sons, imagens, cores, pensamentos, e sensações físicas -relacionadas ao trauma- ganhem vida própria e alojem-se em diferentes localidades dentro de nosso encéfalo. Responsável pela decomposição da experiência, guarda suas lembranças em gavetas segmentadas acessadas separadamente, ou, formando ao longo do tempo uma elipse lógica das recordações, através de técnicas como por exemplo, a hipnose.

A dissociação transita entre dois extremos: em sua versão menor pode ser chamada de devaneio, evoluindo ao formato mais grave chamado Transtorno Dissociativo de Identidade. Exemplos dessa variação podem ser vistos em distintas situações; de um simples esquecimento do local onde você colocou suas chaves, até uma criança que senta-se no canto do teto e observa a si mesmo sendo molestada, sentindo-se triste e neutra pela criança indefesa que está lá embaixo.

No país do feminicídio vale lembrar que a dissociação também está presente em vítimas de estupro.

O psiquiatra Bernardo Tramontini da Cruz, em seu estudo realizado no Hospital das Clínicas de Porto Alegre, descreve uma série de fatores responsáveis pelo desenvolvimento do Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT). Ele os divide em dois grupos: o primeiro, chamado Características Anteriores, contém o histórico psiquiátrico individual e familiar da pessoa, abusos e adversidades gerais na infância, educação e trauma prévio. O segundo grupo são os Processos Peritraumáticos: respostas psíquicas aos eventos devastadores pelos quais a pessoa é transpassada, que vão desde a reação imediata ao evento até a adaptação a longo prazo. É este grupo, segundo o estudo do professor Bernardo, o mais importante fator no desenvolvimento do TEPT, sendo a dissociação o maior deles.

O último quarto do século XX assistiu à expansão global do conceito de TEPT e seu diagnóstico ao ponto dos pesquisadores aludirem sua criação à própria maneira imperialista que a psiquiatria atua no ocidente, vide sua tradição contemporânea. Quando os fenômenos sociais como a guerra e o abuso sexual foram inseridos na grade classificatória do trauma, a definição do Transtorno de Estresse expandiu-se, abarcando novas formas extremadas; o que trouxe ao seu arcabouço não apenas fatos imediatamente biográficos, como também eventos de longo prazo.

O artigo Vencendo o Trauma: Uma Visão Completa do TEPT, escrito pela pesquisadora Letícia Meneses dos Santos e publicado no Brazilian Journal of Implantology, afirma que depois da epidemia de COVID-19, a alta prevalência de experiências traumáticas em níveis nacionais e globais de forma tão significativa, afetou irremediavelmente o serviço público de saúde, evidenciando a necessidade de intervenções eficazes nos aspectos psicossomáticos do trauma. Para além da hipnose como forma eficaz de realizar uma varredura mimética, a terapia cognitiva, dessensibilização acompanhada ao reprocessamento por movimento ocular, exposição prolongada, e terapia cognitiva comportamental focada especificamente ao trauma, e apesar dos modestos resultados, a terapia com MDMA (substância psicoativa do ecstasy) apresentou melhores efeitos.

A estrada em direção ao controle da dissociação e à cura do TEPT ainda é formada por curvas claudicantes, principalmente levando-se em conta que as pesquisas atuais revelam uma acalorada discussão sobre os aspectos imagéticos do trauma, em que imagem e memória vinculam-se através da ingerência de uma sobre a outra, forçando as pesquisas abordarem novas formas teóricas para o entendimento de suas funções dentro da dissociação.

Enquanto isso, nos resta como sociedade lutar por políticas públicas preventivas e protetivas contra o avanço do trauma como uma patologia crônica no século XXI.

Referências:

CRUZ, Bernardo Tramontini da. O Transtorno do Estresse Pós Traumático e o Trauma Psíquico Sob Uma Visão Integrada. Porto Alegre. 2024. Disponível em : < https://lume.ufrgs.br/handle/10183/290451 >.

LEVINE, Peter A. Walking The Tiger, Healing The Trauma. São Paulo. Summos Editorial. 1993.

REIS, Ramon. Trauma e literalidade: a razão psicodinâmica no espírito da traumatização neurocientífica. Ciência & Saúde Coletiva. Rio de Janeiro. ISSN 1413-8123. v.29, n.2. 2024. Disponível em: < https://www.scielosp.org/pdf/csc/2024.v29n2/e19502022/pt >.

SANTOS, Letícia Meneses. Vencendo o Trauma: Uma Visão Completa sobre o Transtorno de Estresse Pós Traumático. Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences. Volume 6, Nº 11. 2024. Disponível em: < https://bjihs.emnuvens.com.br/bjihs/article/view/4368 >.


Subscribe to Fabio N.Biazetti

Don’t miss out on the latest issues. Sign up now to get access to the library of members-only issues.
jamie@example.com
Subscribe