A Feira do Livro

uma rua e sua casa demolida, um gramado e escritores escondidos...

A Feira do Livro

De todos os estandes que visitei na Feira do Livro, o da tua saudade tomou-me mais tempo. A realidade se impõe as retinas no momento em que os pés ressoam à esquina da Rua Tupi. Ali, ao lado do mostruário de badulaques da senhora Sônia, lojinha que vai do doce embalado ao contrário até carregadores assoprando súplicas, o coração arremete. Todo dia pela manhã, entre nove horas e sua metade, estávamos em compasso de patas e pernas. Já no primeiro quarteirão a primeira parada nas árvores. Acalentou-me pensar como sua curiosidade por reflexos e espelhos floresceria na entrada reformada, e por incrível que pareça, relicariar o retórico agachamento diário feito há uns cem metros do prédio, cotidianamente limpo pela alcateia de saquinhos plásticos em meu bolso. Era ali, na alvorada do quarteirão, o nascer do meio da manhã. Segundos passos seguidos nos levavam à próxima parada, ou poste. Porém, eram flores que sempre lhe perduravam atenções. Todas. Por jamais ser uma questão de cores, pétalas, caules ou folhas, transpassavam sua bússola os cheiros. Explorando novidades de sempre ou novo arbusto devidamente circulado, examinado e aspirado demoradamente. Um levantar de patas e um sorriso. O caminho desapressado pelos portões das padarias ou os vizinhos; desconhecidos donos de seus conterrâneos genéticos. As árvores da rua, que sabiam teu nome de cor, ao me verem passar - depois de tanto tempo - esticaram galhos lhe procurando. Confusas sem sua presença, deitaram-se no meio fio. Os prédios modernizados sem saber de nada mantinham-se impassíveis. A única que suspirou ao meu passar foi uma casa quase ao final da rua, àquela com a palmeira no canteiro que você gostava de parar alguns minutos.

Demolida em sua quase totalidade. Sem as janelas, faltando-lhe braços nos batentes e vértebras da coluna central; conquanto, restava a força de seus tijolos. Sustentavam-na incompleta, porém decidida. Tijolos.

Engraçado pensar que os seus também lhe mantiveram em pé, mesmo teu braço carregando uma cruz circular encravada comendo-lhe os tecidos. Tijolos. Parei alguns segundos em frente à casa. Éramos muito parecidos. Em mim, espanto.

Despedaçados soltos, enrustidos de uma poeira temporal formando uma segunda pele. Sem uma entrada definida pois restavam apenas estilhaços de madeira que nem ao menos serviriam a um abraço claudicante. Ao lado da casa, a palmeira seca. Árvore que lá em casa tem seu nome e nina tuas cinzas e meus…

Boa noite filho.

Isso tudo antes da maior subida da rua, a qual teu destemido esqueleto transpassava majestoso. Temerosos, meus joelhos tentaram burlar o destino, tomando ação de agouro mórbido ao fugir da subida. Engano sólido, levou-me diretamente à porta do hospital o qual fora atendido nas últimas semanas.

De tempo lento, chuva, cortes de energia dentro do consultório, a finitude do corpo irremediável, morte embalada na pele, e sua inenarrável festa com as médicas.

Marretas atropelaram os joelhos e meu rosto sucumbiu ao vento memorial e seus cacos de vidro. Os carros na avenida, avizinhavam vulcanizados andares confusos pelos semáforos. Nenhum deles viu o corte em meus olhos. Lembraram-me, o destino era outro. Tal qual tua vontade de viver, sem o menor pestanejar. A respiração que não vem, enquanto dois monólitos perturbam células do calçamento arrastando caminhares. Uma sirene em espasmo avança a estática. Inadvertido, embebido em circulares lembranças, sem entender como cheguei aos portões de entrada da Feira do Livro.

Uma antiga árvore, após a banca de jornal, ressoava um tom mais escuro. Envelheceu ao lado de uma construção cercada de tapumes cerceando o sol. Observava a clareza arroxeada dos arcos de entrada deste mundo quase outro. O calçamento arrodeando meus pés não mudou muito, e uma felicidade iniciante abateu o peito ao perceber que a feira livre não perdera seu espaço local. Quintas e sábados, aos olfatos, eram dias em que o óleo dos pastéis desenhava arcabouços encômios de vida por onde caminhávamos. Pela lateral do lado esquerdo, sem janela de dormir, por entre os carros, memórias do gramado. Quando nos faltava espaço, como aos passantes sentadas ao restar dos bancos na praça de alimentação, era a grama que nos recebia contorcendo o vento em brisa. Em porém d’água ou seca, a depender do clima, sempre a nos confortar espaços. Lá que você brincava ou voando voltava ao banco de cimento do outro lado, seu lugar predileto; onde hoje barracas de descanso hospedam rostos seminovos e catedrais culturais. Ao caminhar além, era possível lhe ver correndo aos círculos na rotatória. Um bloco de músculos tão coeso, belo e retilíneo quanto os livros da Autonomia Literária. Reminiscência sussurrada ao corpo como um esbarrão da bola lançada que trazias como troféu. Beleza lúcida em cores, tal qual uma das capas da Âyné.

Enquanto lia pelos dedos as marcas nas páginas, texturas de capas e paletas dos primeiros parágrafos, recordei dos minutos que permaneciam refratados enquanto descansávamos. Ausente de pressa, teus olhos permaneciam sempre no brinquedo ou no teto azul de nuvens ancoradas. Eu em hipnose pelas cores do gramado; uma paleta concisa demais como os livros de poesia da Fósforo. As pinturas que nos passavam diante, sentados no meio fio à frente dos arcos da estádio, confundiam-se àquelas a chegarem nas excursões. Nesse sábado transformaram-se em um quadro fixo. Um teatro do mundo. Não sentei à calçada, nem vi uma excursão; só tua sombra moldava meu sorriso semiárido, só tua miragem era luz de Manet.

Caminhando na direção das bilheterias do Museu do Futebol, em direção ao grupo de escondidos autores da Patuá, assinando livros aos leitores pescados no afluente do asfalto, vi a escada circular. Tentamos subir algumas vezes por ela. Ainda fria, recalculando o vento que desce pela avenida, catapultando-o como bala de canhão na entrada do Museu, foi a face que menos mudou ao longo dos anos. Semântica concreta que perdura, amansa revoluções por formar jaulas, e transtorna termômetros. Os autores naquele lugar eram estacas em porto sem navios; soldando sonhos na areia e dedicatórias a desconhecidos.

Uma força tamanha; a mesma das suas tentativas em subir o cadafalso donde morria o vento, ou de carregar um câncer pela pata, permanecendo colossal tal qual um estande. Todavia, um suspiro resvala.

Em todas as folhas vistas ou letras manuseadas, a vingança do tempo concluía-se perfeita em seu desatino. Alimentar-se de vida, percorrendo espaços cujo uníssono d’alma poderia ser reverberado aos tímpanos por quilômetros, fora como redescobrir a verdadeira pele.

Os acordes salvaguardas nasciam pelas mãos de artesãos vestidos por um iluminar; enquanto conversavam com os frequentadores, oralizavam os sintagmas dos livros em violinos. Menos por simularem cirurgiões, e mais pela amabilidade, retiravam seu coração do peito e dançavam estriados adágios. E faziam isso por oito, dez ou doze horas. Maiores que o simulacro de uma bela época, torneada pelo passeio público que tornou-se o canteiro em que tu corrias atrás de uma bola de plástico, foram essas pessoas a lembrar-me teu maior ensinamento enquanto estavas vivo; amar ao ponto de compartilhar a vida com desconhecidos em forma de letras. É cada dia mais clara tua lembrança recordando-me esta verdade.

Atravessando o residual amargo da saudade, fez-se nascida uma introdução de crônica no gramado primeiro do Pacaembu. Um rapaz alongando-se férrico na estrutura polida instalada no local, tinha como companhia um boxer de versão caramelizada. Lembrei que dias atrás, ao abri o computador velho, que nos acompanhou por tantas malfadadas tentativas de ter uma carreira como escritor, nossa foto estava ainda na tela como descanso. Floresceu por entre um mausoléu de plástico bolha. Àquela foto em que fingíamos dormir enquanto o amor nos embalava.


Nunca foi tão claro livros ressignificarem memórias.Fui construída pelo pagar. Então eu paguei o amor e, pior –pago sempre por outra campanha a marcharuma noite no deserto para o flash de canhão da sua pele pálidaestabelecendo-se em uma lagoa prateada de fumaça em seu peito.
Natalie Diaz, trecho de Extrato do Poema de Amor Pós Colonial.

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