A mancha me apavorou
não ficção / perfil biográfico
O único momento em que Rogério Antônio Malaquias transpareceu algo que não um completo domínio de todas suas ações, eu não estava próximo, ou à uma distância que garantisse apurada precisão de fatos, pois jamais o encontrei frente a frente.
Ele estava de costas à suntuosidade daquele prédio de localização historicamente lúdica, estático à Rua Charielo, que possui extensão de exatos dois quilômetros e corta o chamado centro da cidade; ao noroeste do estado. Fato confirmado no acaso do desavisado passante que estava no mesmo momento na mesma calçada feita de ladrilhos estilizados; marcadores de uma modernização urbana que remonta ao século XIX. O escritório é na verdade uma casa construída no processo de urbanização entre os anos de 1890 até 1920, em que dois grupos políticos lutavam pelo investimento da recém formada elite cafeeira, possuidora de senzalas escondidas nas construções próximas aos seus casarões. As marcas dos esforços em transformar a cidadela no espelho da bela época parisiense estavam todas incrustadas nas paredes do escritório advocatício. Cronistas daqueles idos tempos, tais como Sebastião Teixeira, tomados por uma poça rasa com acúmulo de chuva barrenta, enamoravam-se pela ordem dos fonemas pedindo o expurgo dos cazebres que feriam a esthética da cidade.
Menos a edificação que marcava o sucesso profissional de Malaquias.
Aquele passível templo, um dos vértices no triângulo formado pela hipotenusa pavimentada, a prefeitura municipal e a Igreja Matriz de Nossa Senhora, maior, mais rica e frequentada pela elite econômica da cidade, jamais arredou o pé de seu devido lugar, como mesmo testemunhou os mesmos desavisados passantes pelos anos seguintes ou anteriores. Nem ao menos os ladrilhos sentiriam o passar do tempo. Muito menos Rogério.
Apenas no campo das imaginações poderia se entender que talvez o tempo realmente não fosse um sujeito mais do que ausente nos pensamentos do advogado. Havia no passar dos dias a confirmação do que se foi acertado com o destino. Antônio Malaquias, seu pai, e filho de Marinho Malaquias, o patriarca, desde cedo, quase como uma imposição, traçou em Rogério as dormentes pelas quais a locomotiva diácrona de sua família continuaria um legado iniciado quando os primeiros bandeirantes chegaram ao remanso do vale da cidade.
Reza a lenda, que ao chegarem na nova área, os colonizadores da coroa, após matarem o último indígena, sentaram-se à borda do afluente no Rio Tietê que lhes serviu de leito e desmascarou-lhes a sede, admirando o pequeno morro e subsequente planalto. Deixaram metade da caravana no local batizado com o nome do bagre que serviu-lhes de jantar. Outra lenda, de outro tempo, fala que o peixe é na verdade o espírito de um guerreiro que jamais aceitou seu destino, e vingou-se por amor de inúmeras hordas inimigas. Do pescado restou apenas a cabeça decapitada pelas mãos brancas, as quais um desavisado passante afirmou serem do quinto avô do advogado, que em 2025, em frente uma das paredes do suntuoso escritório de advocacia cedeu por milímetros sua efígie.
Cabe admitir que a falta de um encontro jornalístico real comporta certo tom de desconfiança receptiva quanto o ceder do homem em frente ao muro da entrada. Mas os passantes desavisados não mentem. Ainda mais os que se escondem em moitas de capim. Oculares desenlaces de perseguição torneados por desamparo violento, provenientes do objeto anafrodisio. Torneados em pancadas, buscam resolução observando os porquês da força desmedida em seus rostos, corpos e costelas. Seus relatos insistem em dizer que as relações de Rogério desde a adolescência eram caminhos traçados pelos seus antepassados à beira do rio, o mesmo que seu pai admirou por anos do portão da casa onde o advogado cresceu, na rua tal qual tapete vermelho levando até à porteira da antiga fazendo de Seu Marinho, herdada após a degola do peixe lenda indígena. Nela, Rogério chegou a brincar pela casa grande em estertores, até que o pavimento urbano empurrou sua descendência aos limites de um terreno pormenorizado, mas de grande valor especulativo. A infância que desfez os sonhos em favor da hereditariedade pode ser sentida nos valores de Antônio.
Manter o legado da família vivo seria feito com a força de uma motoniveladora arremessando artefatos históricos goela abaixo de um lamacento rio em sangue. Forjar Rogério através do concreto, para que se tornasse uma ode, foi feito utilizando a força motriz de uma carroça desde seus primeiros passos. Nem a possibilidade de que isso ficasse em segundo plano, por conta das evoluções sociais que o advogado teve durante toda sua adolescência, era plausível. Não poucos, Rogério viu-se intrinsecamente ligado a episódios onde agrediu alunos, chutou costelas, queimou materiais escolares, e até em um caso mais grave, espancou por sete quarteirões um colega de turma por conta de um apito na partida de basquete; esporte escolhido pelo pai para que sua linhagem de retidão moral fosse exposta à população. Antônio escrevia por linhas tortas o nascer do defensor da moralidade interiorana; Rogério, por sua vez, precisava liderar seu povo com exemplos dados ao longo de sua vida no colégio. Uma criação de domesticação e hierarquia, como uma quase maioria naqueles tempos.
Talvez fosse isso que, segundo um desavisado passante, fez tremer os pensamentos do advogado quando evaporou seu respirar de forma abrupta, ao transcorrer seu um metro e noventa de altura pelo muro do escritório e ver a mancha de cor rousset, que mais parecia o contorno de um corpo humano pulverizado ali. Um corpo sem grito, sem dor, apenas uma mancha que parecia um corpo, mas que era uma mancha. O problema era como saber o quanto de verdade existia no real acontecido, já que nunca nos vimos. Apenas passantes desavisados seguem seus relatos.
Os estudos de Rogério seguem o cartesiano vestibular à faculdade de direito na cidade vizinha. Os tempos liberais daquela década auxiliaram a família, e o então estudante pode deixar as marcas colegiais para trás e seguir em frente por novos times de basquete. Pivô nato, fez dos quatro anos estudando leis um laboratório ideológico cujo esplendor teórico tornaria-se amálgama aos anseios familiares na continuidade de seu papel como bastião cidadão. Não bastava mais apenas forjar o inconsciente coletivo através da família, era tempo de utilizar as leis, e uma vez mais reconstruir Jaú em outras fundações.
Antônio falhou em não antever que seu plano seria superado pela astúcia do filho, que entendeu exatamente seu papel já nos primeiros anos de universidade. O júbilo só não foi maior por conta de algumas intervenções, segundo declarações posteriores do pai pelos cafés da cidade, de detratores ornados em inveja, que nos últimos dois anos tentaram macular a imagem de Rogério ligando-o ao que foi convencionado chamar de pequenas confusões; tais como algumas acusações não comprovadas. A única certificada certeza era o diploma cravando o advogado como condutor de um legado que na virada do século existia mais como lenda de um peixe homem, mas possuía a força de uma carroça atropelando crianças.
O casarão com seu nome na placa de entrada foi o primeiro utensílio comprado no pós universidade. A sombra de um totem nasceria no primeiro dia de agosto, no penúltimo ano do século passado. Dois anos depois, nem a queda de duas torres transmitida através do planeta, e que mudaria por completo as relações sociais da humanidade, fez com que Rogério perdesse o foco. Escritório próspero, os sócios investidores de imóveis pela cidade, a cidade expandindo-se e descobrindo latifúndios urbanos, cujos donos eram tais o advogado: herdeiros de antigas fazendas perpétuas cercanias; os limites proclamados civilizatórios nas terras do outrora guerreiro indígena morto por amor.
O triângulo morada, localização da grande casa do direito municipal, tornava-se cada vez mais seleto. Vivia-se um tempo sob o manto renascentista de Sebastião Teixeira. Casas mais simples deslocadas aos subúrbios e novas moradas grego parisienses elevadas pela nova estética. Tudo o que importava passava àquela rua. Os desavisados passantes relatam que o futuro do escritório de Rogério avistava-se através da mudança nas marcas de carros ao longo dos meses, ou das alcunhas dos frequentadores procurando por direitos, divinos, hereditários ou financeiros.
No café da esquina ou no empório há dois quarteirões, pequenas bocas de soslaios lábios sobressaltavam todas alcunhas em pormenores. Nomes, estado civil, que faziam e como faziam. Tudo era esmiuçado como se um decreto lei desse à filisteia função fiscalizadora sobre o guardião moral da cidade. Tudo era passado, repassado e esquecido. As marcas dos carros sempre foram uma memória constante desta amnésia popular. O espanto completo nem mais eram os logotipos ou candidaturas relâmpagos ao poder executivo ou legislativo através dos anos, mas uma constante maresia de preocupação nos olhos de Rogério. Os passantes não deixaram esse detalhe passar despercebido. Constantemente ao encontrarem o advogado, baluarte cristão da cidade, como era chamado pelo sacerdote da Matriz de Nossa Senhora Aparecida, era impossível definir o vazio poente nos olhos do homem em ternos cortados por longevas calosidades nascentes de agulhas e linhas. Bolsos simétricos aos lenços escondiam algo para além dos segredos, os azuis e cinzas paletas adornando italianas solas, sofrendo solavancos emocionais nem ao menos visíveis. Eram um ponto perdido nas fotos sérias até demais, feitas para construção do endereço eletrônico dado ao escritório ao tempo da modernização tecnológica necessária para guardar os arquivos que não foram triturados.
Nem os desavisados passantes que viram Rogério no embarque do aeroporto da capital, para uma viagem com escalas em países da América Central, com destino à Suíça, entenderam bem aquela feição vazia em seus olhos. Não souberam nem ao menos dizer se essa maresia tinha relação com o rompimento da sociedade do escritório, seguido por mais alguns processos judiciais, descritos uma vez mais por Antônio, seu pai, como prova da máxima:
No Brasil gente rica e honesta só se ferra e espertalhões se dão bem.
O que se sabe com certeza, é que Rogério hoje com seus quase quarenta anos, ainda detém hereditariamente a missão que lhe foi destinada na garagem da casa de seu pai, quase em frente à porteira da fazenda de seu avô, no exato lugar onde uma roda de carroça adornava o muro. Ser o guardião moral da família e dos bons costumes jaueneses, nem que para isso tivesse que ser tomado por um vazio nascido posterior as suas órbitas; e nem elas saberiam descrever porque eram desse modo. Outro fato que permanece, até mais palpável, é a mancha de cor marrom avermelhada pregada no muro à frente do escritório tal qual uma sombra humana abalroada por uma explosão. A mancha que desavisados passantes garantem ser a causadora da frase dita após o único momento em que Rogério Antônio Malaquias transpareceu algo que não um completo domínio de todas suas ações:
A mancha me apavorou.
De minha parte jamais poderei comprovar se essa frase foi proferida ou não, pois eu ainda estou escondido atrás daquela touça de capim, resguardado pelo morro sem asfalto, com terra entrando pelas orelhas, enquanto ajeito dentro do peito uma roda de carroça que abre caminho rasgando minhas costelas.