A mesa
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Text within this block will maintain its original spacing when publishedCalabouço dividindo duas gerações
duas pessoas que mal se conheciam
em seus assentos permaneciam enquanto
usavam o mesmo sobrenome
A mesa de fórmica branca
quatro cadeiras -vieram de fábrica-
proteção para uma, arma para outra
Sem embargo as duas esperavam
cada uma em seu canto
esperavam a mesa dissolver uma esperança
ou tal revólver redentor
A mesa era um colapso descolado
do rosto de um dos corpos tal qual anteparo
da pele experimentando um outrora perpetuado
mesma forma que sua mãe sorveu do chicote atrás da porta
Era arame farpado rasgando rosto até os ossos
impedindo o voo em asas de bisturi
o jornal rasgado
separação de gerações no mesmo laboratório
Duas pessoas distantes na mesma mesa
placas tectônicas as prendem
açoite as mantém perto em riste seco
a mesa é apenas o trôpego
o bêbado
o violento
canaliza os restos pela garganta
duradouro desespero debilitante
Esperam seu futuro separadas por décadas
jamais se encontram
mesmo ali naquele mesmo espaço
naquela mesma mesa
Fria tampa do jamais
separação
por décadas até a tela de um telefone
anos depois
Mesmo sentadas no mesmo local
na mesma mesa
apenas restavam o espanto da distância
cadeiras empurrando destinos
desespero da não linguagem
vazio de acenos feitos por partes
queimadas com ferro de passar no tornozelo
ou canudos frios
separados na mesma mesa
o não
o impotente
um soco
a desistência
aquele colégio empurrado pelo abismo
a incapacidade do abraço
na mesma mesa
ali parada
estática como lágrima
impedida de cair por completo