A Rua Cleveland
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contrapondo com o laranja terra das paredes que sustentam-se por gemidos
respirações embaçadas, escarros sem casa em pés feridos
deambulações trôpegas
no meio fio a descida é íngreme
solta como caracol sem raio no contra fluxo carros
sempre carros na contra mão da evolução
eles não falam
gritam distorções em rádios fora de sintonia
são apenas carros mortos sem saber de sua real posição na subida
a calçada mínima cria muros
almas que não se enxergam porém desviam uma da outra
apressadas
escarificadas
sacrificadas na poluição da manhã
o viaduto por onde passa o metrô assovia um blues de John Lee Holeman
os freios dos trens superfaturados dilatam ácido & agudo som nos trilhos
esse é o sexagésimo segundo trem modernizado vermelho opaco
rouco em blues de mescalina
louco por entre os dias, apressado
porém nem tanto quanto o paraplégico em seu skate de flores mórbidas
repousando na rampa descida da Rua Cleveland
sente seu redor esvaziando-se enquanto abre o papel onde se encontra o crack
logo abaixo das inscrições dos neo nazistas dizendo que são os melhores
essa é a terra prometida a terra que escorre por entre as baforadas
na homeostase da pobreza hereditária
esse é o sexagésimo terceiro trem modernizado
esse é o sexagésimo quinto trem modernizado
esse é o sexo dos Bandeirantes
esse é o septuagésimo nono trem modernizado
todos parecem ser o mesmo trem, o mesmo sexagésimo terceiro
tilintando seus freios crackeados no cinza do céu
Geraldo Alckmin contemplando seu plano de moradia
enquanto outra favela queima dentro da noite
o inferno de matrículas abertas por entre peles retorcidas metropolitanas
nessa rua a ciclovia é democrática
por onde passam pula pulas, bicicletas, skates e carrinhos de mão
não os carros
eles já moram no coração podre paulistano
moradores e seus recicláveis salvadores com suas lonas de conversível ímpar
o ódio de não poder frear essa mágoa eterna
as anedotas descem na garoa insistente aos ouvidos mais atentos
árvores do Sesc Bom Retiro repletas em urina canina
os cheiros da angústia de não saber onde se está
os impostos repletos em falcatruas
reclamações de uma classe branca que já nasce pedestal
cuspindo racismo em torcidas
angariando simpatizantes como a pichação dos neo nazistas no viaduto
vendedoras e pacotes escravocratas de roupas feitas por retalhos sul americanos
em casas minúsculas no centro da cidade
morrendo aos poucos inalando gás laranja nas máquinas de costura caluete
a súplica de se deixar viver em um país estranho
com ruas como a Cleveland
repletas de poeira cósmica dos desiludidos
a tristeza grafitada nos rostos
a tormenta & trovoadas do sofrimento
os letreiros de São Paulo expelem névoa
escarros permeiam a vida por entre os destroços d'um beijo
um beijo mais doce que sangue
mais impresso do que o desenho do ser e seu crânio aberto na passarela
esse beijo, o único beijo, por entre os trens
entre o prédio da polícia
que se prepara para mais uma desapropriação de moradias
onde as pessoas não receberão beijos redentores.
Nota: Eu amo Allen Ginsberg. Amo. Eu já disse que amo? Pois bem, Coração Binário e a Navalha em sua Alma nasceu depois que li A Queda da América, livro de poemas. Eu me encantei com a prosa e a febre, o que normalmente são coisas que me alucinam e fazem perseguir o desespero da poesia. E não se enganem, poesia é desespero. Coração foi escrito entre 2013 até aproximadamente 2018 no final das eleições. A ideia era fazer um retrato de algumas coisas que vi na cidade de São Paulo e nos davam o futuro pré-estampado. Desde as desapropriações eugênicas do governador e seus sósias futuros até os movimentos de rua que trucidaram esperanças. Isso tudo com talvez as maiores manifestações revolucionárias da nossa história no começo desse século: O movimento estudantil dos secundaristas em 2015.
A Rua Cleveland é uma rua real aqui no Baixo Centro de São Paulo.