Apresentação
Escrevo para vocês, novos e renovados assinantes, para estreitarmos nossos laços -nos conhecendo melhor- e como forma de lhes agradecer o imenso apoio.
Últimos dias de janeiro e sentira passos alongando sons, caminhando para perto de suas narinas ainda acostumando-se com o relevo daquele lugar. Um lugar de letras, textos e poemas no formato de enorme galpão atacadista. Naquele canto, voltado à seção de itens dispensáveis -onde quase sempre se colocara- por uma coincidente brisa travessa, ouvia os passos chegando. Atônito tanto quanto os novos residentes, viu-se dentro de uma sala cercado por rostos nascentes tão refletores de constelações quanto de curiosidade. O corredor já não mais tão escuro, visto os novos visitantes iluminando cantos enquanto tentavam descobrir nuances naquele espaço, apresentava um reluz algodoeira. Era um dia de noite por entre palavras preenchendo a falta de gravidade daquele espaço que por entre os dias mudava de cor.
Esse pequeno trecho introdutório é só uma forma de descrever o que senti na última semana ao ver uma quantidade bem bonita de pessoas frequentando meu pequeno laboratório de experimentos poéticos e literários chamado Descarrilo Cotidiano. Novos assinantes, novos rostos passando pela linha do tempo; dentro de uma plataforma que cada vez mais repete fórmulas desgastadas desse tempo que gosto de denominar capitalismo autocrata de silício. Até por conta dessa nuance, achei por bem escrever esse post que deve ficar fixado por algum tempo na capa da casa (ou não). Uma apresentação desenformada, um enorme olá coletivo ou até quem sabe um novo bom dia aos que já estão nesse corredor por mais tempo.
Contudo, para além de tudo, essa postagem é um enorme agradecimento para os que acompanham meu trabalho. Eu sei que escrevo isso em todo rodapé de texto, mas sempre é bom saber que vocês estão do outro lado, apoiando como podem. E por isso, é preciso deixar levar o coração ao obrigado.
Por isso mesmo, penso ser de bom tom me apresentar.
Oi!
Tudo bem com vocês?
Espero que sim, apesar dos pesares que não são leves.
Da minha parte sigo em. Meu nome é Fabio N.Biazetti (o N o sobrenome materno que sempre utilizei, mas de uns tempos para cá a conexão com a família paterna ganhou um outro significado, quanto mais eu acreditava ser realmente um escritor (e me denominar como tal), por isso até a ênfase no último. O n com ponto próximo ao b do terceiro nome é proposital, por conta do signo visual de significado da unidade (Fabio é formado pela união dessas duas confluências). Mas isso é, como quase tudo aqui, uma experimentação.
Comecei a escrever com meu corpo mínimo, minino ainda sem a letra E. Fugia da casa dos meus pais e atracava no farol dos vizinhos que possuíam uma coleção de livros em casa que desenharam dentro do meu peito um mapa de fuga, sempre utilizado em todas as ocasiões. Foi ali que esbocei meus primeiros erros gramaticais, do mesmo modo o nascer dos meus sonhos.
Na escola estadual em que estudei por entre meus primeiros calendários, a nascente experiência oficiosa como escritor que nem ao menos sabia o que era isso - apesar de se refugiar do mundo na construção de roteiros imaginários, escritos pelos cíngulos com atuações soberbas do corpo escondido no corredor da casa- , ao ser escolhido pela professora Vera para participar no jornal da classe. Uma seção sobre cinema foi morada por todo um semestre. Até hoje lembro dos filmes resenhados pela ordem de publicação:
- 2001 - Uma Odisseia no Espaço;
- The Wall;
- ET;
- Os Saltimbancos Trapalhões;
- Christine, O Carro Assassino;
- A Coisa.
O jornal não vingou, mas as letras permaneceram e foram meu esconderijo até o momento que me vi perdido com quinhentos reais, uma mochila e a cópia surrada de A Queda da América de Allen Ginsberg no metrô Clínicas na cidade de São Paulo. Outra das minhas espetaculares fugas do destino, a capital tornou-se estrada com (como escreveu Antonio Cícero) “outros olhos e armadilhas”, contudo, foi aqui que minha pele aos poucos ganhou meu corpo verdadeiro. Um lugar que criava suas próprias traquitanas ásperas ao mesmo tempo que ensinava a fórmula do ácido a derreter tais fechaduras. São Paulo é uma criadora de etos.
Nesta cidade contribui como escritor nos sites culturais Nego Dito (um dia conto sobre um dos projetos mais lindos que participei chamado Reversos), Altnewspaper e Jamé-Vu e publiquei poemas em revistas literárias como Mallarmargens, Literária Br., Inutensílio, Fazia Poesia, Quincas, We Love Bananas e Revista Subversa. Do projeto Reversos, por enquanto conto que dois poemas meus foram musicados por Estrela Leminski, Téo Ruiz, Pedro Pracchia e Renato Gimenez. Possuo obras em coletâneas da Big Time Editora e na Revista CTRL+Verso da Cooperativa da Invenção da Casa das Rosas, onde participei de dois grupos de criação em poesia contemporânea.
No ano 2023 meus poemas estiveram em dois pavilhões da The Wrong Biennalle (Verbivocovirtual e Kamîm Tuhut).
Esse então sou eu.
Muito prazer em conhecer cada um de vocês!
Agora que a gente se conhece, vou mostrar como é minha casa (coisa do pessoal do interior que não pode ver uma visita que já vai mostrar a casa).
Vamos por partes:
a) Aqui você vai encontrar (minha sugestão é que comece por aqui), meu portfólio. Demorei anos para entender que deveria possuir um dentro da internet e feliz fiquei finalmente ao conseguir:
Você pode ver todos os poemas já publicados em ordem cronológica AQUI.
b) Em seguida, sinta-se bem confortável para explorar os dois livros que estão em construção constante dentro deste laboratório. O primeiro deles é o que deu nome ao espaço, Descarrilo Cotidiano, que foi escrito em viagens de metrô, ônibus ou nas pás dos pés; mais pela necessidade menos por ser plano literário. O livro caminhando com o cartesiano. Muito da minha outrora inexperiência, hoje atual, está nas linhas dos poemas, do mesmo modo a busca por uma voz que nem ao menos sabia possuir. Ela, nascida depois de muito buscar, moldou-se argila que espera as mãos e certamente acelerou uma aflitiva coragem impulsionar letras desta publicação.
O processo de construção do livro, com reescritos ou editados poemas, você lê AQUI.
c) Da mesma forma, estende-se o passeio ao segundo livro de poemas, que pelo andar dos dias deve tornar-se outro gênero literário. O Coração Binário e a Navalha em Sua Alma formou-se como quase uma continuação de “Descarrilo Cotidiano”, contudo, a lírica poética sublimou-se em gases concretos; não os poeticamente conhecidos dentro da diacronia literária brasileira, mas os menos nobres, intrinsicamente influenciados pelo cimento dos fornos térmicos especulativos e lanças predatórias de senhores de um bandeirismo tardio e tecnológico. Os anos desse período foram antes de qualquer denominação, nefastos.
Os poemas desta obra refletem muito mais a crueza da vida, embalada em crises de desconexão nervosa; como viver vinte e quatro horas por dia dentro de uma sociedade que coloca várias lâminas cartesianas nas gargantas das pessoas e desloca a alma em direções de desespero. A constante reflexão em velocidade banda larga do coração aos solavancos diários, empurrando corpos em direção ao desfiladeiro.
Mesmo assim, o músculo cardíaco recusa-se a morrer e você pode ler o eletrocardiograma AQUI.
d) Agora vamos à sala. Aqui há uma seção que me é muito querida chamada de Poesia Tecnológica. Depois das duas estações passadas na Casa das Rosas com a Cooperativa da Invenção, percebei que o gosto pela ruptura e transgressão na linguística seria meu caminho latino dentro deste planeta. Tudo começa com Philadelpho Menezes (imagino que você nesse momento já percebeu uma certa obsessão com ele aqui) e a banda Negativiland, duas das maiores referências pessoais dentro das artes (junto com Chantal Akerman e Tarkovski).
É nesse espaço que projeto meus experimentos de linguagem mais amados e me servem de base para buscar novas formas de pesquisa dentro dos signos verbais também. Um lugar muito querido mesmo, para você poder VISITAR.
e) Por fim, nem por isso menor, lhes apresento a nova seção do laboratório: Contos, Crônicas & Capítulos, que é exatamente isso. Um lugar onde o avanço das experimentações atravessam outros gêneros textuais, e que enveredo com mais veemência ao longo dessas últimas semanas (mesmo que muito do material postado seja poesia). AQUI é o local que você deve seguir para poder ler.
É isso.
Esse sou eu e essa é minha casa, a qual você também habita. Espero que permaneças por um bom tempo. Quero lhe agradecer mais uma vez pela estadia e lhe garantir de minha parte que jamais deixarei de alimentar as paredes desta morada. Até porque, essa casa é minha alma mais visceral e tudo aquilo que eu nasci para ser.
Um grande abraço.
Fabio.
Nota: Eu iniciei essa carta com uma outra introdução menos crua e mais experimental, mas desisti. Porém deixo-a aqui no fim para que você possa ler também.
Apresentação:
- Não existe base de beleza suficiente em você que justifique esse seu não sorrir eterno, e para além do léxico, teus textos parecem regurgitação daquele outro paspalho.
O pensamento tornou-se tão concreto de uma forma tão rápida, que nem houve tempo suficiente para qualquer consoante oclusiva, em um rompante de coragem, tornar-se destemida o suficiente para se colocar à frente da frase. Era ponto. Por mais que a distância entre a porta de saída fosse menor que a profundidade do fosso onde se encontrava toda uma psiquê arremessada contra a parede, jamais conseguira dar o passo em direção à maçaneta; era preciso afundar por entre as costuras do sofá enquanto anatemática salvação empurrava para longe a porta, e, menos por opção, mais por sentir uma trabécula de satisfação enquanto era chicoteado, permaneceu.
Sentado, usando uma camiseta vermelha em frente à brisa trapezista nascida das nervuras brancas daquela cortina de serrotes que esmerilhavam seu tronco amedrontado, enquadrado pela enorme janela vertical de braços férricos escurecidos, seu rosto resvalava em pequenos acobertamentos nas curvas do tecido, onde escondia-se voluntariamente sangrando. Já não era a primeira vez que se colocava em uma posição dessas; perdido por não saber o que falar ou pelo menos um tropeço de argumento que poderia ser usado para mostrar o desconforto pelo desamparo ouvido em forma de - Olha você me pediu sinceridade. A sinceridade perfumada como francesa flor de aroma multimilionário, dançando por entre narinas hipnotizadas onde jamais poderia existir o entretanto de uma maresia contra argumentativa. Sinceridade macia como leite aveludado descendo pela garganta; quente como navalha.
Não saberia dizer o que sentira, a inadequação era tão violenta que pensou por instantes que seu estômago agudizou uma curva peritoneal de tamanha envergadura, que por segundos cheirou seu rosto enchendo-se de ácido. - Como meu deus - Pensava em minúscula fé. Não haveria de ser apenas uma alucinação, até pois nem fora a maior mão refratando seu rosto. Não há resposta a dizer se tudo não passou de frase solta, contudo, a única atitude branda era andar pelo cadafalso da sacada utilizando os serrotes como salva vidas. - Aqui a luz em contragosto reflete lindamente nos azulejos. Pensou pausando a caminhada, olhando em direção ao pátio da fábrica abandonada; a mão esquerda segurando os cabelos em cima da cabeça e a direita como se arrancasse pedaços da lateral cerebral; os olhos cheirando a espanto e terror desenhando a sombra reta pelo nariz, enquanto uma mecha de luz lutava pelo lado direito da testa.