As cinzas de Guadalupe
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Text within this block will maintain its original spacing when publishedArtelhos tortos de brasa
mãos atadas no calabouço
o corpo se funde ao calçamento
como engrenagem auxiliar ao rotacional da terra
criada n'uma nave chicote atrás da porta
pelo chão de terra caminhavas pitadas
passadeira guadalupe e sua pele escarificada
dentro do útero cinco filhas e um homem morto
ninavam o rancor autodidata
chão de terra cadeia latino americana
arrumadeira amante
sangue com memória calcinada
Das tuas núpcias de caixeiro viajante
postou-se nua por imorredouros jamais
sobraram o bar onde ele desaparecia
e as ruínas a lhe proverem carapaça
o álcool embebia fraldas e matava germes
daquele aceno talvez tão longe
aprazando grau e hora aos teus esquecimentos inquilinos
Movendo-se por camadas
entrecortadas por ruídos
Do fósforo que me destes
como se fossem cinco reais
sobrou o sorriso de canto
esquecido como seu perder-se
lento, violento, contra o qual lutavas
bateste o quanto podias
tal qual látego atrás da porta
que tuas filhas lambiam enquanto normalistas
A terra dentro de tua mãe
ardendo no navio foice
cortou seus pés desde menina
no salgado do convés que te drenou
religião cega
terços
imagens
ladainha
os dedos queimando no tacho da polenta
carvão do ferro de passar grasnando teus articulares
quando mortos escavaram as laterais da cova
tentando uma última surra
na única filha que te limpou
sozinha
queimando os tornozelos como arremate
A faringe muda
pelo estrondar afônico
perdida na evolução do mundo
sem saber como seguir em frente
dor de não querer
salga o ar em lágrimas
antes mesmo de lembrar quem eras
tu que trocavas fraldas feito anjo
tu que amparavas o amor aos socos
durante o tempo que todos nós te abandonamos.