Astolfo, o agente de viagens terá sua redenção na Estação Carandiru.

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Astolfo, o agente de viagens terá sua redenção na Estação Carandiru.

Text within this block will maintain its original spacing when publishedPois o espaço entre as pernas em estática permanecera
não existia movimento com elevações agonizantes
-daquelas que sempre dão vista em pessoas mais velhas com aquela estrutura-
entretanto, ele entreteve-se tão estacionário
que a qualquer momento poderia soltar pela faringe badaladas gelatinas
tal qual relógio de precisão ineficaz

Residia em sua cabeça uma curvatura anatomicamente precisa
formada na sua grande maioria pelos rebordos de um oboé Boina
escavando tentáculos anastomoses demarcando o córtex
rastelando para trás tentativas traquinas de lembrança
ou qualquer desgaste mórbido de memória que Astolfo possa ter

Latifundiária de sua cabeça cultivando falta de piedade
que sempre apresentava em seus dentes
-aqueles que oprimem as palavras prancha de braçadas-
o oboé Boina repousava dono de si mesmo e do homem
nas curvas exatas como uma equação quântica de biofísica atômica
Astolfo não parecia importar-se
entretido estava envolto nos enlaces de páginas

[onde aviões e siglas fingiam não ver seu enclausurar capilar
muito menos a fronteiras da república autocrata sangrenta
reprimindo pensamentos dissonantes]

folheando como se suas mãos fossem ávidas turbinas
e seus olhos trovoadas em tormentas
retinas de cúmulo cirro
ninfas mecânicas com asas e rotores
queimadores de mentirosos e seus caminhos de cinzas

“she’ll came back as fire to burn all the liars,
leaving a blanket of ashes on the ground”.

Não se importa com apenas
nem que esse apenas fosse apenas seu ponto de vista
não se importa
suas mãos ocupadas a carregar sonhos
menos ainda se importavam com os ruídos dentro do vagão
um rio de bocas pelos corredores do trem
cavidades preenchidas por um lagarto músculo estriado
modulando-se em cores tais uma lâmpada estroboscópica
Astolfo não enxergava
mas era possível ver os répteis cavalgando por entre as alças
escalando os pilares proparoxítonos responsáveis por parafusar
os quadris dos passageiros ao assoalho
seus olhos de folhetim no rosto reclamando o ódio como alavanca
o nada prostrado que virava as páginas dos livros

"just because you're paranoid
doesn't mean they're not after you".

Mas Astolfo não se importa
quer apenas continuar sua veloz antecipação
do que está por vir nas próximas onze folhas
pensando em manches macios
cabine pressurizada quente e aconchegante
um útero de segurança que a qualquer momento pode cair
as mãos rápidas
os olhos tenebrosos em não acompanhar seus dedos
a matemática inexata do planar
para trás e para frente
para frente e para trás
para o meio e para frente
para frente e para o meio, e
para trás de novo

Astolfo soluçou ranhuras
os panfletos onde pode-se ver, Dubai, Aerolíneas Argentinas, Israel, África do Sul, Egito, Grécia, Lufthansa, elefantes, safári, espingardas, homens em couro areia
e não existe sequer tremor nas mãos
está ele armando sua redenção em forma de viagem
provará aos que sempre o viram como apenas um homem de meias compridas
finas e de sapatos pretos ligeiramente gastos em sua porção valga
rosáceo pendente do lado esquerdo como se fosse cair
seu rosto cubista se permanece sério por demais tempo
deixaria mostrar toda sua feiura em riste
ele sabia
todas folhas dividiram seus contra tempos em mil pedaços
tudo em sua mente sempre foi uma névoa acelerada
com desejo de tornar-se tônica assim que o querer pensasse
na exata hora em que seus anseios exacerbados pelo aço do metrô
lhe dessem o necessário impulso ao que se chama de voo livre
lá iria Astolfo
aos céus sem parada obrigatória
sem estação de repouso
sem pouso de emergência
apenas ele e sua redenção em asas
o rei do ar
o monarca de todas as aves, e
enquanto seus panfletos das companhias de viagens
suas brochuras com aviões e pontos turísticos
estivessem por dentro de cada centímetro de DNA exalado em sua pele solta
ele chamais seria um idiota.

O que Astolfo não sabe ou procura não saber
é que os lagartos estão soltos pelas estações
sem controle de zoonoses sem carrocinha sem antirrábica
confabulando suas mandíbulas construindo comunidades
protegidos no ecossistema dos oboés Boinas
soldando notocordas assassinas pelos dias
sem nenhuma supervisão
visto toda a construção das estações do metrô
não suportarem postos de controle contra lagartos
muito menos políticas antioboé.

Não que ele ignorasse por completo a presença dos linguarudos
senhores de Santana aloprando-se nas encostas dos balcões
nos bares do Centro aos sábados feirantes
ele também não ignorava que esses mesmos senhores viviam transmutando-se
em reencarnações diversas desde os tempos de seu pai
-o próprio um lagarto de Santana do interior do estado-
sentia palpável as ondas das faringes reptilianas regendo os rearranjos cognitivos
de toda população naquele ano
sabia por conta das surras que levou ao longo da juventude
que esses sintagmas hipnóticos eram de mesma natureza hereditária
dos que conheceu por entre as arquibancadas e sacos de cola de sapateiro
no interior de São Paulo
eram a mesma formação genética
ismos de higienização social salvaguardando os grupos de lagartos
que utilizavam oboés Boinas como sistema de circulação de e-mails.

"Never met a wise man, if so it's a woman".

Astolfo, o agente de viagens, até imagina que as promessas de ninguém
estampadas nas páginas que folheia
podem ser uma coleção de falas falsas feitas pelos reptantes
também imagina que isso não importa
pois ao descer do trem possivelmente esquecerá tudo
suas lembranças soarão apenas como agudas oitavas abaixo
sem ressonância dentro do córtex
terá dificuldade de lembrar-se onde está como chegou e quem é
menos aflito por perceber que seus passos foram apagados por ele mesmo
mais por não saber como recuperar a trilha de sua memória
quando então se dá conta disso tudo
não mais abre fecha folheia passeia pelas folhas
apenas arruma os exemplares usando como medida o tamanho
cor e espessura
suas rasuras de vida com figuras
coloca-as de maneira educada e gentil dentro de sua maleta preta
recoberta de zíperes, fechos e desesperos
onde cada objeto tem sua posição confortável e solitária
como corpos em coma acordados para o banho de sol
sem nenhuma testemunha que lhes diga
o quanto importantes são.

Assim gélidas em seu caixão, as matérias escondidas
enquanto o agente de viagens recorre ao suco alaranjado de fitas VHS
armazenado em uma pequena garrafa de plástico
com seu rótulo alcaguete
revelando que o suco laranja não é definitivamente laranja
afinal de contas sua etiqueta é roxa ameixa
Astolfo toma-o sem pressa dessa vez
o fecha
espera
acorrenta as últimas tentativas de entender onde está realmente
pede clemência com o olhar que agora contém óculos em sono
e levanta-se ao chegar na Estação Carandiru.

As portas do trem abrem-se
os lagartos lhe chutam a bunda
ele sai cambaleando advérbios
retoma o que restou do raciocínio
repensa em todas as formas de voar
mede a distância entre o pontapé e a mureta
que separa a gravidade da plataforma de embarque
arremete uma corrida sem freios
rápida como as mãos em seus folhetos de viagens

voa
voa voa
voa voa voa
e voa voa voa voa
voa voa voa
voa voa
voa

Atira-se aos pedregulhos em pulmões metálicos embebidos
onde certas displasias do mundo teimam em convencer
que as metástases de meritocracia são mais benéficas do que malignas
quem o vê despencando percebe um sorriso à prova de balas
e mesmo que esse desejo encarnado em voo jamais se concretize
é possível sentir cada respiração amalgamar as balas secas
que os lagartos atiram de cima da plataforma
para garantir que Astolfo morra de uma vez por todas
sem nenhum acalento do asfalto quente
o agente sorri pequenos celestiais pedaços da vida
uma inversão da inversão na formação de imagens da retina cognitiva
que recebeu ao longo dos anos.

Ganha sua redenção na Estação Carandiru, e,
se lembra por alguns momentos
durante suas crises de esquecimento
o quanto sente falta de sentir-se triste
menos porque é dono de uma ímpar depressão
mais porque realmente não consegue lembrar-se
porém, Astolfo sempre terá os panfletos e a memória da tristeza

“I miss the confort in being sad”.

(Territorial Pissings e Frances Farmer Will Have Her Revenge On Seattle – Nirvana)




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