Azul (trecho)

o livro que me achou, um teaser faça você mesmo e o trabalho escolar.

Azul (trecho)

AZUL

Escrito por Fabio N.  Biazetti.

Trecho.

1.

Era possível aquele arredio de tintas rubras nascido sem dentes, que ao longo do tempo aprumou em sua boca caninos roxos, incisivos noturnos e para além do entendimento científico permanecia vivendo em uma borda repleta de necroses, que lembravam cactos avermelhados, romper a pele; e se por acaso tal verdade quarasse, haveria de limpar uma quantidade desmedida de secreção espalhando-se tal qual boato que leva ao linchamento. Enquanto toda paranoia encaixava-se por entre os pensamentos, um raciocínio arremedo insistia sobreviver por entre o fogão crematório do desespero; que a vida a se esvair nas tramas rompidas de uma pele por um tumor é a mesma que resiste ao brotar por entre a terra.

Como deveria de ser o câncer rompeu a pele acompanhado por uma artéria aos berros, transformando a cozinha em uma fonte italiana. Apavorado como quem se perde sem olhos dentro de um tufão, aquela massa do tamanho próximo a uma laranja repousava em sua mão esquerda, vazando a cena mais apavorante que já viu na vida. Dedos travados evitando ao máximo qualquer trepidar em porém que levasse ao cão possível trejeito de dor, enquanto as gengivas caninas chegavam ao pálido cadafalso da barca que o levaria embora para todo sempre.

Mas era preciso manter o ritual de amparo a todo imensurável custo.

Um ritual realizado lambendo maestria que até então em sua vida só existia como lembrança nem ao menos sua, mas residente nas memórias cravadas como ferro quente nas recorrentes histórias de sua mãe, cuidadora do mesmo tumor na perna de sua avó muitos anos antes. Não saberia dizer se o câncer de sua avó algum dia sorriu como um assassino em série, da forma que aquele tumor explodindo em sangue lhe sorria agora, pois ao nascer, menor que um resquício de unha mínima, não possuía arcada dentária. Era uma elevação sem milímetros, desprovido de manjedoura ou de mãe.



Nota: Azul é o livro que me achou.

Estou em processo de reescrever meus dois primeiros livros de poesia (Descarrilo Cotidiano e OCBEANESA) da mesma forma e ao mesmo tempo, reeditando meu conto Antes do Apagar das Luzes. Passo atualmente por uma fase complexa de vida, em que os dias são além de tudo, manobras empurrando por dentro de minha traqueia todo o desamparo que o mundo pode criar.

Não tenho como objetivo elaborar o fato acima.

Minha escolha quanto os rumos desse laboratório.

Contudo, desde que me acidentei na garagem de casa, caindo da própria altura, depois passar cinco horas dentro de um pronto socorro municipal, percebi uma história sobre cuidares me arrematar por completo. Lembranças de minha mãe e de minha avó colidiram por entre os cíngulos enquanto esperava saber se existia um coágulo, um traumatismo craniano ou se poderia voltar para casa sem ter episódios neurológicos adicionais.

Passa o tempo e a situação supracitada começa (durou os últimos três meses) a somar-se com todas ideias sonhadas dentro do pronto socorro, até que explodem dentro do presente.

Percebi assim um livro arremessado contra minha cara como um tijolo. Azul é a cor das paredes do PS. Também é minha cor preferida para além dos tons marrons.



Nota 2: Utilizei o trecho do primeiro capítulo de Azul para ilustrar um exercício da pós graduação que faço atualmente, para além da minha graduação em Letras. Consistia em criar uma obra, nascida das palavras manchas em nossas girafas (girafas são metáforas aos centros inspiracionais e palavras manchas são ideias nascidas dessa girafa metafórica), como parte do processo -muito massa- (que uso para fazer os poemas propostos pela escritora Verbena Cartaxo) de criação ensinado pelo professor Pedro Gabriel.

Munido de uma vareta para retirar fotos, um celular barato e uma ideia na cabeça, escrevi um roteiro, filmei alguns planos, dirigi, editei o vídeo, criei a legenda, renderizei, fiz a trilha sonora e por fim nasceu o teaser do livro.

Existem duas versões:

a) a primeira sem legendas:


b) a segunda com legendas:


Nota 3: eu não faço ideia do que acontecerá, pois sou um cachorro correndo atrás de carros. Mas eu estou animado quanto a bater mais essa laje.


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