Bodas de mangue
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de ortoepia na boca
olhar de mangue
a vi perder tudo que tinha
na última enchente
alguns sutiãs no ralo
mantimentos no chão
rolimãs sem embalo
a mulher à mesa
sorvendo água marrom
fumando o cinzeiro
os filhos
a vida levou
o marido
morreu
quando embarcou no trem
a mulher
olhar de mangue
encontrei-a em frente à casa
salvaguardando peças de lama
que eram artigos de tapeçaria
nas mãos
um objeto fortemente abatido
a foto manchada
um fantasma no cabide
a mulher
olhar de mangue
com a caneta na mão
riscando a fotografia
os olhos vociferantes
àquele que a perseguia
não a reconheceria mais.