Coração asfáltico

p. 52

Coração asfáltico

Text within this block will maintain its original spacing when publisheda distância entre o casebre no beiral d’uma linha férrea
aos poucos consumido pela oxidação
& a sacada burguesa branca onde prendeu a corda
legando-a morada por duas voltas em seu pescoço
era de trezentos e trinta quilômetros de coração asfáltico

um último sonido a ser ouvido quando se quebra o crânio
é o florescer de alguns parcos restos humanos
eco poluente trina uma navalha na artéria central
o peito edemaciado por fumaça aprisionado ao edifício
vagando por grandes avenidas enquanto são chicoteados por tremores de vida
hematoma exterminará reparos medíocres vendidos como saída
espírito humano esmagado por portas giratórias de falsos progressistas
sangue corroerá miríades extremistas ao som de gemidos lançados por catapultas
todas lembranças / cheiro do aço retorcendo os dentes
elásticos formam fossas tectônicas nos ossos temporais
existência alimentada por fios -enquanto a rejeição completa-
encruada por tantas veias
repousa por entre pensamentos sobre a morte
[na luz d’um abajur coruja

aos poucos a corda se fecha
labirinto de tosses num caixote de aço
milimetricamente disposto em noventa graus
vê-se o botão de pânico ao lado da porta
a sacada então se abre em escada rolante de engrenagens
cela de súditos desesperados em pensamentos caricatos
destruindo máquinas de livros

recordações do casebre se distorcem na realidade da corda
as perdas d’um natal torcido
abafado
decomposto pelo álcool & cigarros
cambaleios d’um eterno bêbado subconsciente
acordado pelo tapa tão forte no rosto que faz seus óculos voarem
dentes que rangem uísque
a forca que pressiona o crânio esmagado por correntes de couro na gengiva
memórias paternais enquanto o nó amarra a faringe ao desfalecer final

febre de alucinações causada pelas feridas expostas ao sol
lança órbitas acima do horizonte
lembrança do beijo na esquina, o começo,
rompida por dizeres bárbaros a invadir o encéfalo no açoite do frio em dezembro
ordena que se erga os braços ao céu de cerejeira
urrando salvação pois jesus está em cada nó

revolucionários sonhos mantidos arredios
presos por moldes sombrios familiares
cadafalsos em fileiras atirando corpos em paralelo nos coletivos.

ao longo do infinito tempo o qual a morte se aproxima
& o som abafado d’um adeus não mais se ouve
onde os cantos escuros da fachada agora parecem troncos de pinheiros
no centro oeste do interior de são paulo
tudo que resta é explosão
tudo que resta da vida é estar pendurado n’uma argola
a cabeça silencia os murmúrios de precisa redenção
marretas em rostos a moer o cotidiano

são quinze minutos passados das sete da noite
grite então grite então grite então grite então
grite então grite então grite então grite
entretanto
apenas o dissolver da pele no motor do ônibus ao longe

o corpo em pendular movimento afaga os sonhos
cefaleias de tensão há tempos conhecida
saudades encapsuladas trancadas por todas as chaves certas
despertas pela frase que insiste em abordar o destino
retirar o esqueleto velho & desovar um novo
neste ritual libertário

desta morte é preciso reter a calma resiliente
contrária da violência nascida no rebentar hospitalar
onde as últimas flores são depositadas na incubadora
& dores imensuráveis na dissolução do periósteo
que jamais poderia segurar os dentes
formam costumes unindo se às memórias

é exatamente por isso que se deve caminhar
retomar a vida que nos foi tomada em falso caminho único
destruir os vícios órficos do amaldiçoado desenvolvimento messiânico
pois espreitam gerações a tentar devastar todas possíveis lembranças da terra
donos falsos do tempo através da errática a-história

até que sobre apenas o mármore de tuas coxas a esmagar minha língua
dentro do teu útero deus renascer meu corpo
libertária asfixio filia após trezentos e trinta quilômetros de coração asfáltico.




Subscribe to Fabio N.Biazetti

Don’t miss out on the latest issues. Sign up now to get access to the library of members-only issues.
jamie@example.com
Subscribe