Descalça

poema objeto utilizando software Processing4

Descalça

Nesse mês de fevereiro, em dois mil e vinte seis, o laboratório recebe a visita da poeta peruana Diana Bauer - Albinez.

Antes de escrever sobre Descalça, o curta metragem do objeto poético, apresento uma breve biografia da escritora:

“Diana Bauer é uma poeta peruana que reside na Suíça. Move em seus escritos a fusão entre a precisão analítica (é formada em economia e tem especialidade em análise) com a sensibilidade lírica para descrever, em versos livres, a busca pela liberação humana inspirada na observação do ambiente natural e da empatia; transformando a existência cotidiana numa celebração da vida em comunidade e da conexão natural.

Ela entrelaça o amor, libertação e natureza à experiência humana. Junto ao mundo exterior explora a identidade e a transformação através da paixão, em uma conexão profunda e contemplativa da terra.

Suas colaborações com profissionais nas áreas de filosofia, medicina e poesia criam uma voz única, que carrega uma visão profundamente humana e conectada com o mundo”.



Notas sobre o poema objeto Descalça:

A ideia era transformar os versos em uma estrutura viva, como pede o mote.

Um ser livre sem amarras. Mesmo não apresentando pés, com leveza de estar caminhando pelo ar. Voar um voo livre e com asas.

A junção entre a criação de listas vetoriais e equações matemáticas possibilitou o movimento mais orgânico. A bilbioteca de som Minim uniu a voz aos vetores desenhados na tela, fazendo com que a estrutura se mova através do som.

O programa como sempre é o Processing4.

A ideia sempre foi, mesmo correndo o risco de passar muita vergonha, declamar o poema em espanhol. Sem a utilização de IA e com programas de código aberto, como o Audacity. Algo que não me é estranho, pois possuo outros trabalhos com a mesma veia experimental.

O poema e sua tradução podem ser lidos abaixo:

versão original:

Text within this block will maintain its original spacing when publishedDescalza

Amarme descalza
Libre de cadenas
Sin ruídos
y sin pausas

Descalza
Decido ser libre
más silencios
menos miedos

Amarme descalza
Entre sueños
Anhelos
y utopias

Descalza
Destino con alas
Para volar
y volar libre.

a tradução:

Text within this block will maintain its original spacing when publishedDescalça

Amar me descalça
Livre de algemas
Sem ruídos
e sem pausas

Descalça
Decido ser livre
Em silêncios
sem medos

Amar me descalça
Entre sonhos
Anseios
e utopias

Descalça
Asas por destino
A voar
um voar livre.


Sobre construções em conjunto…

Ao longo do tempo, este ofício da escrita concedeu-me a capacidade de construir parcerias. Durante uma conversa profissional, esse detalhe foi trazido em forma de constatação. Você desenvolve bem projetos coletivos, apontou o interlocutor.

Antes de começar a escrever busquei as comprovações sobre tal afirmativa; confesso ficar feliz com os resultados. Ao longo do caminho foram projetos realmente traçados por muita gentileza e troca.

Começam com as versões dos poemas “Trago e “Baque” no projeto da Revista Nego Dito, Reversos. Uma experiência tão bonita que até hoje levo comigo toda a gentileza concedida pelos músicos construtores das versões de meus fonemas. Nomes consolidados e com uma trajetória especial em suas escolhas. Estrela Leminski, Teo Ruiz e Bernardo Bravo, do mesmo modo Pedro Pracchia e Renato Gimenzes; sempre os procuro como bússola.

Adelante.

Outro projeto envolvendo música atravessou fronteiras e indiretamente foi o primeiro passo ao que viria depois.

Enquanto aprendia caminhos novos com o professor Rafael Diniz, o poema “Trauma” foi contruído em sua versão tecnológica. A ideia foi remixar a estrutura do doublet poético com o poema processo. Quando pronto, o músico Felipe Braun trouxe consigo uma versão musical. Não fazia parte de sua estrutura o som, mas tudo encaixou-se de maneira tão perfeita que seria um crime deixar de fora.

Algum tempo depois nasceu o “Poema Objeto Solar”. Experimento surrealista a partir do trabalho da colagista Amanda França e do músico Paulo Ribeiro. A inspiração veio pelo trabalho de Amanda e como suas colagens refletem aspectos temporais que deslocam a transposição da vida na direção do surreal em trasncendência. Paulo trouxe a música como complemento dessa passagem, com notas soltas quase percurssivas. Interessante denotar que ele além da música, tem na psiquiatria sua profissão. Ao longo do tempo, percebi que as notas dentro do arranjo são a construção do pensamento.

O ano era 2022.

Quando colocado assim pode até soar um certo exagero diacrônico. Mas a sincronia daquele tempo era tão fervente, que diastemas febris abriram-se infelizes em uma gama enorme de traumas. Naquele ponto eram seis anos de tensionamento.

Foi quando conheci Gabriel Faraco.

Chegou por conhecer o trabalho com poesia tecnológica; trouxe consigo um épico. O mote de “O Mico” era o derretimento do boneco titereiro fascista da vez. Sem as amarras, correndo atrás de emas, auxilando na morte de setecentas mil pessoas. O poeta, com a certeza que só a poesia tem, tramava sua dissolução como uma espécie de excremento expelido que desapareceria. A primeira parte não poderia estar mais correta. A segunda ainda é esperada, mas o capital sabe manter por perto seus animais de estimação. Ao longo do tempo, o poema tornou-se uma espécie de profecia.

O correr dos meses ampliou minha participação dentro do mundo da poesia digital. Conheci a dupla de poetas argentinos que me ajudaria a expandir o alcance da escrita. Ana Veronica Suárez e Omar Omar são os criadores do coletivo Aura Poesia Visual.

Foi através de nossa parceria que pude ser publicado internacionalmente na “Antologia de Poesia Visual” produzida pelo coletivo, o que me levou a duas participações nas Jornadas Internacionais de Poesia Visual da Casa das Rosas em 2023 e 2024.

Todo esse caminho trouxe-me até 2026, quando a poeta peruana Diana Bauer - Albinez entrou em contato comigo através do Substack. Atualmente morando na Suiça com a família, sua trajetória tem semelhanças com minha história. Ambos começamos a escrever depois de iniciar uma outra profissão. Buscamos expandir o que a vida nos trouxe através das letras.

Sigamos sempre escritores sul americanos!


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