Desculpe incomodar ou A Batalha das Batatas
uma crônica futurista.
Como era soberba aquela ciclovia. Sentir deslizar o pneu emoldurado nesses raios de alumínio enquanto a faixa amarelada interna na borracha alumia todo meu discernimento de classe era tão prazeroso quanto sentir o couro de capivaras sintéticas macio nesse assento vitoriano de rigidez média. O motor elétrico, recarregável pela energia solar limpa, arremessava minha paz de espírito por meros quarenta quilômetros por hora de puro deleite.
Domingo, dez e meia da manhã e o bairro de Pinheiros me abraçava como tantas outras vezes. Árvores especialmente plantadas e recortadas em formas geométricas tal qual uma escola Bauhaus de Camboriú, minha bicicleta com quadro de titânio feito em uma impressora três dê do Fab Lab no SESC Pompeia, todo pintado em cores afro cibernéticas compondo minha maravilha inclusiva - E porque não exclusiva! A cestinha da frente adornada pelas amadas fitinhas do Senhor do Bonfim, benzidas pela tia prima de Dona Canô, que encontrei procurando a casa de Caetano no Pêlo, me protegem contra todo mal tal qual Jorge - Evoé! Nem fiquei chateado em contribuir com a família de Bethânia dando cem reais a sua tia perdida, mesmo achando estranho ela não conhecer o trabalho da sobrinha. - Alguma coisa sempre acontece no meu coração!
O trajeto era sem muita variação. Flanaria baudelerianamente com calças xadrez coral de minha casa aqui na Aspicuelta em direção ao Largo da Batata, passando pela Juscelino - Obviamente parando no Iguatemi para tomar meu mocca latte herbal e o mais novo sanduíche assinado por Alex Atala: um Bauru feito com queijo coalho e feijão tropeiro cultivado em uma reserva indígena amazônica, flambado com mel sertanejo. Tudo com selo de qualidade da empresa do próprio chefe, aliás, capa da Forbes esse mês sobre agronegócio sustentável com desapropriação controlada. - Um luxo sustentado, ou seria sustentável a palavra? - Não sei!
Rumar então ao som de Raça Negra no iPhone 120 - Promoção básica da Apple Store do Shopping Cidade Jardim! E seguir até o Largo, afinal de contas domingo era dia de encontro da juventude PCSOL, partidão de centro esquerda formado pelas sobras do PCO -depois da investigação que provou o partido ter planos de cometer atentados contra minorias religiosas com objetivo de acabar com o identitarismo na política- e dissidentes do PSOL que achavam a Presidenta Érika Hilton muito extrema esquerda. Só gente de luta nessa nova formação. Se eu tenho um orgulho nesta minha vida sofrida de classe média precarizada branca foi fazer parte de um grupo político desse nível intelectual.
Depois da privatização das ciclovias pela Tesla, medida do nosso eterno prefeito Ricardo Nunes -hoje comanda a prefeitura utilizando o avatar criado por Ricardo Almeida- tudo se tornou eficiente. As luzes macramê revestidas por minério africano sustentável, são de uma eficiência ímpar na sinalização. Acabaram-se os atropelamentos, mesmo verdade que ainda aconteçam alguns casos em ciclovias da periferia, mas são coisa pouca. As faixas diminuíram de tamanho por conta do corte de gastos com manutenção, nem por isso ficaram piores. Com o aumento de velocidade permitida, agora empresas de tecnologia investem em bicicletas cada vez mais resistentes e poderosas. - Sem perder obviamente o estilo e o design! - Acidentes são coisas da vida! - Namasteze-se, a vida é para ser vivida!
Avistei o Largo da Batata e usando o sinalizador de seta do Google Watch 3000, virei à direita e acelerei - Confesso meio freneticamente na direção da praça! Por sinal meio vazia para o horário. Ao me aproximar percebi um veículo sem motorista parado na ciclovia. Como não poderia deixar de ser, era hora de colocar toda a militância para fora e fui pra cima do caminhão fascista. Para piorar o maldito instalava na via uma praça de pedágio. Furioso chutei a porta do caminhão que tinha na lateral a inscrição Pringles. Ao deformar a lataria o bólido se abre e lá de dentro uma haste de alumínio brilhante acoplada por uma câmera, onde se lê a inscrição Microsoft, transborda pertinência líquida.
- O Senhor por favor me forneça um documento.
- Eu não tenho documentos, eu sou uma ideia e ideias não morrem!
A haste então se aproxima, liga uma luz na minha cara e eu levanto as mãos entoando o mantra “Sem violência”.
- Senhor Márcio Aurélio de Almeida Prado, identidade número 158.256-78, residente da Rua Aspicuelta, número 234, apartamento 34, tipo sanguíneo AB negativo, por favor seja notificado da multa por dano ao patrimônio público e privado. O pagamento pode ser feito via PIX ou na nova transação financeira criada semana passada chamada de Campos Netix. O valor é de mil e duzentos reais e pode ser parcelado.
- Como você sabe tudo isso?
- Senhor. O Senhor acabou de comprar um Mocca Late Herbal na loja da Hare Tea Pot no Shopping Iguatemi. Todos seus dados estão lá.
- Mas como eu estou sendo multado, a ciclovia é do povo!
- Senhor, a ciclovia pertence a empresa Tesla e o proprietário é o senhor Elon Musk, que ganhou o contrato de licitação em 2025 e desde então protege, cuida e pune; em nome da lei e ordem para que tudo ocorra dentro dos preceitos democráticos.
- Mas está escrito Pringles na porta do seu carro! Essa empresa produz batata!
- O Senhor Elon Musk comprou a empresa produtora da batata em folha por conta da privatização do Largo da Batata.
- Mas isso é um absurdo!
- Não Senhor, isso se chama taxa de manutenção.
- Mas você me disse que era multa!
- Mas é; a multa é a taxa de manutenção ao mesmo tempo.
- Eu me recuso a pagar!
- O Senhor pode entrar com um recurso no Poupa Tempo de Jundiaí, local jurídico da empresa.
- Jundiaí?
- Sim Senhor.
Nem ao menos tive tempo de argumentar quando um outro caminhão chegou fechando a traseira de minha Soft Seat Cushion Electrion Bike. Na lateral estava escrito Ruffles, também era um veículo autônomo e instalou a menos de dois metros da primeira cancela do pedágio, outra cabine de cobrança.
- Mas que absurdo é esse! Eu tenho meus direitos!
Lá de dentro sai outra haste com outra câmera na ponta escrito Xiaomi e a voz me avisa:
- Bom dia Senhor! A Empresa Elma Chipps lhe deseja uma manhã solar! Que seu domingo seja abençoado e repleto de batatas! As nossas sempre fresquinhas e cultivadas manualmente por agricultores humildes do Paraguai, todos participantes do Programa Pombalino 2064 criado em conjunto com o Vaticano.
- O que?
- Sim Senhor, do Paraguai. Quero lhe apresentar nossa cancela eletrônica de pedágio para o Largo da Batata. Serão instaladas ao longo da praça seis cabines iguais a este modelo e toda a arrecadação será destinada ao fundo de investimentos dos Amigos da Batata, uma joint devanture formada pelas incorporadoras Dubai, Gafisa e Tecnisa, que juntas trazem a inclusão e alimentação saudável como moeda de valor aos empreendimentos imobiliários de alta classe nos bairros de Pinheiros, Vila Madalena e Perdizes. Em breve Jardim Europa, Tatuapé e Vila Nova Conceição.
- Mas isso é gentrificação pesada e assassina! Isso não pode ficar assim! Quem autorizou isso?
- O Senhor mesmo!
- Oi! Como?
- Sim; quando o Senhor assinou seu pacote de streaming da Amazon Prime concordou com a cláusula especial do contrato brasileiro que dá permissão à empresa em instalar telas de LED nos pedágios urbanos, para exibir trailers de seus filmes e séries, automaticamente concordando com a construção dos mesmos.
- Eu vou chamar a polícia!
Com todas minhas forças tentei sair do cerco das cabines mas estava trancado. - Gritei e gritei fascistas! Não demorou muito um oficial sintético da Polícia Militar veio ao nosso encontro.
- Boa tarde cidadão, desculpe incomodar. Qual o problema?
Aquele guarda, por mais robotizado que lhe fosse o fenótipo, soou-me parecido com alguém que eu conhecia. Intrigado cautelosamente, afinal de contas a polícia não mudou tanto nos últimos trinta e seis anos, resolvi contar o problema. - Estou preso entre essas duas cabines de pedágio e quero sair!
- Simples cidadão, o senhor só tem que pagar.
- Mas isso é um crime!
- Sim, é. Não pagamento de taxas sociais é passível de prisão em flagrante.
- Prisão!
- Sim cidadão; não pagou a multa, a pensão ou correu pelado pela praça é PRISÃO.
- Mas vocês estão de brincadeira! - Escuta aqui meu rapaz, sou um homem de bem, progressista, faço caridade, frequento a Igreja Bola de Neve e Seus Surfistas! - Você sabe com quem está falando? - Aliás, vem cá, você é muito parecido com o Wilsinho, um morador de rua que passeava lá na Vila Madá. - Você é ele rapaz? - Wilsinho, você lembra de mim? - Lembra que eu te dava comida malandro? - Lembra quantas vezes eu te dei roupas de marca? - Lembra, seu mal agradecido do cara…
Não tive tempo de terminar minha militância, quando Wilsinho me pegou pelo pescoço asfixiando meus restos de branquidade e jogando-os na viatura. No automóvel movido por eletricidade da marca Tok & Stock e ainda dopado por um novo gás, que depois descobrir ser importado de Israel, ele enfim abriu o jogo:
- Sim Márcio. Sou eu, o Wilson. Eu me lembro de você. - Lembro de tudo o que você fez e do que não fez também... - Principalmente quando começaram as operações de higienização da Vila Madalena e a gente, moradores em situação de risco, éramos sequestrados à força e levados ao antigo prédio do DOPS. - Foi você quem me denunciou para poder ganhar créditos no Itaú, eles me contaram. - Depois disso eu fui cobaia no Plano de Crescimento Evolucional da PM, onde a gente é modificado geneticamente para se tornar um humanoide robotizado e patrulhar a cidade. - O governador gostava de filmes dos anos 90.
- Eu não sabia Wilson.
- Vocês nunca sabem. Mas fica tranquilo que hoje eu lhe devolvo o favor.
E foi assim que eu ganhei esse uniforme, esse corpo de lata, faço rondas na Praça Buenos Aires no bairro de Higienópolis e durmo em pé em um caixa.
Nota: esse é um exercício entregue ontem para a aula de Crônica. Na segunda feira ao entregar A Escada Escura, causei um certo reboliço por conta das críticas do professor que foram rechaçadas calorosamente por alguns alunos. A crítica mais costumaz que recebo de professores de escrita criativa é que minhas construções são ricas, mas monstruosas e que minha capacidade de construí-las é hipertrofiada demais e não se respira.
Na terça, o exercício era escrever algo com humor e ironia. Me forcei a fazer pois não sou engraçado e também não tenho meias palavras com coisas que critico. Nessa caso, uma certa classe social que se diz progressista mas está achando linda higienização no centro de São Paulo para que se forme um bunker de supremacistas brancos, catapultado pela especulação imobiliária, através das mãos de Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes.
A crônica conto fantástico é retirada da notícia sobre a concessão das ciclovias e do Largo da Batata à iniciativa privada aqui na cidade, feita pelo prefeito que foi sem nunca ter sido.
Obviamente meu objetivo foi pelo ralo, já que esse texto não só tem novamente construções, como ficou maior do que o anterior (A Escada tem 1570 palavras, e Desculpe Incomodar, 1622).
Eu tenho uma outra crônica, que até segunda queria entregar como trabalho de conclusão da matéria, com por enquanto 3115 palavras.
Falharei miseravelmente uma vez mais…
Nota II: Tentei aqui fazer experimentos com a pontuação, utilizando o travessão como forma de dar uma característica moral e de construção do personagem Márcio.
A conclusão e o título são inspirados no filme Desculpe Incomodar, escrito e dirigido por um dos maiores gênios da escrita criativa estadunidense, Boots Riley.
Atualmente comanda I’m Virgo na Amazon Prime.