É preciso deixar morrer
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para que ande
para perder
para que remonte
é preciso deixar morrer sem piedade ou pena
como qualquer folhagem no outono
é preciso deixar morrer tal fisiologia do fim
como esperma seco
como fósforo
ou rastilho de pólvora
como fogos de artifício
ou acorde
é preciso deixar morrer em certeza ímpar
é preciso deixar morrer como estrela outrora
sem medo da vida a pedir passagem
pois a natureza cobra retenção
é preciso deixar morrer para seguir caminho
sangrando aberto
por restos coberto
é preciso deixar morrer
para que não se arrependa deixar viver
o que não era
não é
o que não será
é preciso deixar morrer para que se grite
se sublime o marasmo
é preciso deixar morrer pois não há redenção
enquanto se abriga o podre
incapaz de cobrir cáustico sol
que lhe prega pelas narinas
pedaços de lonaliness
por isso sem falta é preciso deixar morrer
para que se passe
pois não existe flagrante na tristeza persistente
apenas descaminho e ilusão de controle
é preciso deixar morrer para que floresça
para que amanheça
para que se exponha ao luar
pois tentar já não basta!
é preciso deixar morrer o gozo
o esporro
jorro de lixo que aflige diariamente a cabeça
pois é preciso deixar morrer o cotidiano cinza
a verde esperança
o vermelho coagulado
do sangue calcário
é preciso deixar morrer a vida
para enfim poder reverberar o descontínuo
deixar morrer para que se renove
dilacerando a vontade guardada em viver sem amarras
mas é preciso deixar morrer o nada
sem ondas
sem mar
sem sal ou areia
é preciso deixar morrer para que se crie um cataclisma
e o destino desatina
descarrila
desanda a moeda corrente
de dissabores oxítonos
é preciso deixar morrer
o enfim
o entretanto
o porém
o desencanto
é preciso deixar morrer
a desigualdade
para que se possa viver plenamente
com todas as diferenças
é preciso deixar morrer
a covardia
a estática
a trapaça
é preciso deixar morrer o amor
para que enfim se torne eternidade.