Ferrorama
Verificação dos trilhos
No dia em que elas chegaram ao chão, senti os óculos atravessarem por entre a sombra de meus dedos tal qual navalha cortando meu inexistente corpo. O tapa estalando através da mandíbula no rosto de meu amigo coava-se através dos tecidos. Olhos estriados em espanto por serem pegos na surpresa dentro de um embate, que pela minha lógica, nem ao menos aconteceu. Em espanto, me vi tecer tentáculos ao redor de seu corpo no segundo entre a agressão e a volta da cabeça ao lugar de origem, visto ter rodado com a força da mão. Outra vez, oferecido apreço pelos meus braços, ausente cinestesia de meu amigo. Isso sempre nutriu-me algum desconforto emocional, pois nunca o vi esboçar reciprocidade, nem ao menos nos momentos os quais minhas mãos acalentavam seu coração por completo. Poderia ser apenas egoísmo, pois naquele momento específico adrenérgico, seria impossível sentir algo que não fosse a força da serpente amarela esverdeada transformando os ossos do rosto em um ponto definitivo de imensidão. Ao longo dos anos, a anuência de meu amparo ser confundido por depressão também não me foi acalento. Todo o tempo que passei ao lado dele foi de solidão, mesmo meu amigo cortando a carne por sentir meus braços pressionando seu peito.
Da discussão inexistente sobrou apenas um remanso manchado na pele. O xingamento como resposta que recebeu de seu pai ao indagá-lo, fora uma afirmação bélica, não uma conversa. Um atestado de imposição territorial forçada, à pretensa defesa feita pelo filho de toda a postura moral palaciana do réptil que lhe criara. Todavia, não houve tempo. Apenas um vã tentar de meu amigo em vingar-se do que vira; o sedimento revirado por uma retroescavadeira naqueles quilômetros paralelos ao trilho do trem que asseguravam seu caminho de volta para casa, após a visita ao escritório do pai.
Solitário.
Apenas o pesar de minha presença em cima de seus ombros. A sombra escura do meu peito, por onde atravessaram os óculos arremessados pelo tapa, abraçando a nuca de meu amigo.
Não seria a primeira vez que a elipse solidão e violência cruzara seu caminho. A retina ainda fervente das imagens, pitorra giratória buscando um porto em póstumo horizonte, lembrava-se de uma parecida cena em nem tão vetusta outrora. Especificamente do desamparo rebatendo as náuseas ao chegar em casa, recebido por socos maternos. A azul perdida moça, ao intuir seus beijos com a amiga de sala, após não sentir o cheiro fóssil de seu leite materno no hálito do filho, mas sim o gosto dos seios da menina, transpassou um murro em sua cabeça pelo atraso no almoço. Meu amigo, de sorriso transformado em âncora, não teve nem a reação do choro quando o segundo murro na cabeça nasceu por dentro da mão de sua mãe azul. O doce do mamilo exilado em zinco nos lábios manchados de mágoa.
Eu, amparei a sombra com meus tentáculos ocos, nas duas voltas para casa. A segunda, iniciada ao giro daquele miolo de fechadura desapercebido por todos os presentes no escritório.
A tranca estranha tinha um pequeno filete que poderia ou não ser um pedaço de chave. Da sala de escritório antiga, sobrara apenas aquele miolo. Casarão em uma esquina em declive, a empresa vendia materiais para a confecção de calçados. Quase tudo. Couro transpassado por um marrom doloroso, jaulas de solvente, cuestas plásticas sedimentando polietilenos, e planaltos levemente elevados em poliestirenos. Um odor de vício. Na entrada enormes portas de ferro suando nicotina, deixando exalar por entre seus arrebites as pequenas melancolias que uma cidade do interior possui. Os domingos evaporados nas calçadas e suas cadeiras de reunião familiar, as senhoras nas janelas evocando cigarros imaginários que lhe acompanham os relatos, as madrugadas mornas de um sábado desabitado. Tudo calcinado naqueles mausoléus que permaneciam abertos em horário comercial. Por ser desapercebido, meu amigo entrou pelo casarão jamais visto; passou pelas encostas de materiais, adornou com sonhos alguns pedaços de plásticos soltos nos montes, e foi em direção à tranca solitária do escritório da serpente amarelada.
Até o momento de sua morte, amparado na calçada por uma desconhecida, meu amigo lembrava-se do estalo da fechadura. A mesa postada ao fundo da sala era manjedoura de um vidro milimétrico acinzentado. A cor do tampo revoando o tecido de uma saia de mesma matiz e no canto que fazia frente à parede, uma mão esquerda apoiada, angulando o braço. Em momentos chave de sua vida, aquela mão se desenhava por entre as memórias dele; alongados dedos de ungueais planificadas incolores, o cheiros dos centímetros gerados pelo atrito das falanges, o dorso algodoal da palma nuvem arremessando o sexo da serpente amarela de volta ao ninho, para depois voltar a apoiar-se ao vidro. A mão estrangulando a mesa enquanto o réptil amarelo em Ozymandias completo triturava com suas patas um par de pernas na altura de suas costelas. O ninho enchia-se enquanto aquela mão lembrança arrancava o cérebro de meu amigo e o lambia, deixando o sangue escorrer pela boca, que depois beijava a serpente amarela.
No meio da sala uma espiral nasce. De linhas circulares em vermelho e preto. Tal truque mágico mambembe. Em sua borda, o cinza das pernas de sua mãe carcomem os pés da mesa que salivam veneno. Aos poucos as linhas da espiral também são tomadas. O tom necrosa. A sala é engolida pelo túnel varicoso. Serpente e a presa oram ao apocalipse engolindo-se. A porta tranca-se. O mundo desaparece. Só resta apenas eu. Subo nas costas de meu amigo e o conduzo de volta pela segunda vez ao caminho de sua casa.
Nota: a primeira parte de Ferrorama você pode ler aqui.