Ferrorama
Pilhas não incluídas
Enquanto as noites trocavam de pele alvorando-se pelo tempo, é preciso confessar uma certa dose de ingenuidade quanto ao conceito da palavra casa. Muito por percebê-la através dos olhos de meu amigo e seus pensamentos. Morada, segurança ou um teto são definições simples demais e não exemplificam a totalidade, levando-se em consideração tudo o que aconteceu entre aquelas paredes. Se o acaso me desse o afazer léxico, lavoura seria a entrada que escolheria para defini-la. Auto referencio-me agricultor. Menos por modéstia, mais pelo discernimento da bondade, pensar o cultivo do amparo tal um campo de afeto, e deste sonhar em salvar almas. Complexo, desgastante e sem recompensas como todo trabalho heroico. A pedra acima do morro era idêntica à carregada na encosta, mas o terreno deveria ser arado.
Do mesmo intenso amor pelo ofício era a decepção pelo desprezo de meu amigo aos meus esforços. Sobretudo hoje, um cultivo de primar ímpar.
Antes do despertar, estudava toda a costura da casa com o quarteirão. Preparava o terreno daquele dia, pois datas especiais pedem particularidades. Presentes trocados e recebidos na última semana do ano. Buscava um semear ideal antes do sol saturar todas as cores, enquanto uma luz menina avizinhava-se. Tons quase envelhecidos de um branco azulado celeste torneavam-se por ela. Delimitados no horizonte pela névoa em que a terra amparava o firmamento; mascavas linhas uniam-se tal ondas com a costa. Lá, ao fundo infinito, a figura desconexa de uma casa navegando mancha de convés. Tanto distante quanto um ataque vertical de pincel por entre as ondulações da rua. O asfalto bancos de areia descortinando sobras do continente, que o mar deixou quando da maré baixa, construíam níveis de ondulação cercados por lagos menores. Era pintura feita pela espuma d’água lançada das calçadas ao betume. Restos de terra espalhada pelo vento oleando-se ao líquido, tragavam marrons amarelados com detalhes esfumaçados nas bordas; até o vislumbre da casa próxima aos meus olhos. Paredes de pesqueiro negro em uma praia em Berck. Portões fixos por tonelada equilibrista a ancorar hastes velas metálicas. A sombra do deste imenso navio resvala aos olhos uma catedral. Altar em que cuidava de todos os detalhes de meu amigo, sempre costurado aos seus pés. Custava-me seu esquecimento por dias meses ou anos. Era meu papel de herói.
No entanto aquela casa no horizonte, a embarcação de pincelada escura insistia em fitar-me os olhos. Cercas mais baixas na entrada eram sobras da construção inicial. Equilíbrio junto ao gramado raso levemente seco pelo verão sem cuidados. Da mesma forma que todas as outras, a fachada afastada era ar de imensidão impotente. No interior da casa, o casal de moradores esperava a serpente amarela para uma tarde de dezembro entre amigos antes das obrigações familiares do dia. A mulher em azul, que nunca era convidada, vagarosamente enchia o ar com meu nome na casa ancorada no banco de areia. Preparava todo impossível. Primeira grande comemoração que passariam ali. Redobrava-se inúmeras para tudo ser perfeito. A surpresa ao filho deveria ser inesquecível. Achegado à manufaturada árvore com luzes, galhos e enfeites, repousava um quadricular pacote. O som do trem, sempre duas da tarde próximo à rua, deslocou-se metáfora. Era possível ver, por um pequeno corte no papel (feito pelo cigarro do pai aceso) a palavra Ferrorama.
Guardei segredo do presente. Sequer esbocei insegurança quando o pai empurrou-o para fora do quarto enquanto se arrumava. Meu amigo tentou chorar; sequei seu rosto segurando-o firme para que perdesse seu olhar ao longe. Sem reflexos, ancorado com as costas na parede depois do impacto. Meu amparo, uma vez mais ignorado. Nem ao menos obrigado. Até quando. Controlo meu incômodo e penso acalentar seu sofrimento levando-o até à arvore. Esperei. Ele deveria suportar a hora. Não estragaria toda surpresa, nem que fosse necessário leve sofrimento por alguns minutos. Seu olhar perdido me procurou como suspiro. Estávamos juntos outra vez, dependendo um do outro.
O pai sai com uma sacola de cervejas tornando-se outra pincelada perdida além dos bancos de areia. Caldeou-se através do portão de entrada, em direção à tinta do casco no horizonte. Espumava contentamento errante. A ponta de cigarro prístino desaparecendo segundos. Meu suspiro antecipa a tormenta de atraso a ser vivida naquele dia. Entro pelas paredes de nossa casa uma vez mais. Cinco horas da tarde. Meu amigo tomava banho, pois deveria vestir festas costuradas ao corpo. A moça azul enforcada entremeio as grades no fogão, açoitava-se pelas chamas através da mãe que lhe ditava o ritmo das chibatadas. Enquanto o mar de asfalto deixava-se amar pela baixa maré, uma canção em sonido continental atravessava a costa das casas; desenhava a serpente amarela dançando com a vizinha enquanto seu marido preparava outra rodada e acendia três cigarros. Seis horas da tarde. A música perfurava o meio fio. Já vestido, meu amigo sentou-se ao lado da falsa árvore. Esperava. Distraía-se com um dos livros emprestados por seu vizinho, sobre um homem e seu desejo em estudar a loucura em um lugar chamado Casa Verde; fato que lhe colocava um sorriso no rosto, pois o hospital tinha o mesmo nome do bairro em que a família da moça azul mudou-se ao longo dos anos. Sete horas. A ansiedade resvalava em estragos, mas seu controle não deixaria transparecer o pânico. Tremores através das costelas e seu rosto intacto despedaçando-se atrás das orelhas. Mesa pronta. A mãe corre ao quarto e permanece ali por alguns minutos. Funde-se à parede em lágrimas. O pai pulsando escolhas libertas das prisões auto construídas. Cântaros ingestos de álcool, fúria e urros. Livre de si mesmo. Genuinamente feliz, pois seu corpo ventava pelas arestas das telhas enquanto era possível ouvi-los até ao lado da falsa árvore. Oito horas. A moça azul rastela os cotovelos com um garfo. As tiras de pele tornar-se-iam memórias. Impossibilitada em conter o tempo através dos dedos, conta as gotas de desespero enquanto pede ao filho que vagarosamente monte seu presente. Se entender muito bem, mas ciente sobre o significado, meu amigo atravessou um sorriso desguarnecido. O pacote dissolveu aos poucos revelando meu anterior olhar. O maldito nome; persecutório até o final dos meus dias. Ferrorama. Nove horas. Pedaços de plástico em forma de pilares, trilhos e sinalizações. Tudo precisa de ordem, então é necessário paciência. Percebo um detalhe escapar que não a ausência da serpente amarela. Meu amigo não avista o pecado, pois concentrava-se no término da construção. A pista de formato infinito. Uma ponte e outra curva. Todas peças das dormentes afiadas. Encaixes lentos. A sensação de perda completa ao entender que pilhas não estão inclusas. Os sons da casa no horizonte ilusionam feridas auditivas. Nascem reticências nos olhares. As veias nas mãos de meu amigo transfiguram pulsos arroxeados. Tudo parece retificar um terremoto. Dez horas. Já cansado, aparo minhas costas na parede da sala. De tanto esperar o jamais do réptil, a moça azul vai até à vizinha. Meu amigo a vê saltar entre os bancos de areia. Ela chama. Ele sai. Levitou um urro derrubando o copo. Bate o portão entre os dedos dela exigindo respeito. A serpente arrodeia as pernas da mãe e esmaga seus braços. É possível ouvir o hálito do pai por toda extensão da rua. Ela pede que volte, pois o trem não tem pilhas. Ele gargalha. Os dois deveriam parar um trem de verdade e pedir ao maquinista que empreste a bateria. Um soluço materno. A serpente lança um míssil ar rosto. Ela cambaleia ao meio fio. Meu amigo trava o maxilar. Quebra o segundo molar. A serpente dança em direção ao casal de amigos e rouba um beijo da vizinha e o cigarro do marido. Eles sorriem. A casa trancada no rosto da mãe. Enquanto volta, seu sangue claudica do olho ao chão. Meu amigo cospe os restos do dente. Os restos do mar nas poças do asfalto levitam; formam caminho seguro à moça azul e sua órbita tingida em vermelho. Onze horas. Amparo a mãe enquanto seu olhar perdesse ao longe. Não percebo o filho correr à sala. Antecipo sua presença ao lado da árvore enquanto descreve linhas imaginárias com os dedos. Uma vez mais o abraço com força, esperando que toda aquela dor cesse. Não há resposta. Apenas o rosto estático. Meu gesto ampara seu coração com tamanha resiliência que sinto-o bater por entre minhas falanges invisíveis. Meu amigo não responde nem ao menos um suspiro; apenas a distância. Em meu peito algo acende.
Não percebo a moça azul chegar. Acompanhada da mãe que a leva pelos braços e lhe dá um copo d’água. Aos tremores, observa o Ferrorama e a ausência completamente prontos. Um brinquedo que depois de tantas conversas, brigas e restrições impostas pela serpente não serviu de nada. Quantos apelos da criança em querer, pela certeza da ajuda paterna. A data seria uma renovação do casamento. Espuma de maré ressoa nos lábios da moça azul. Toda a arrumação da casa para nada, o vestido tão inútil quanto as mechas no cabelo. A maré avança. Não existe mais saída ao dia, tudo arruinado por conta da insistência no brinquedo. A maré sobe. Ela ataca. Os pés demolição dos trilhos arrancam a ponte de lugar. A retroescavadeira das mãos alavancam os vagões em direção à janela. Seu filho incrédulo lhe pede perdão. A maré ressoa. Ele não consegue desviar quando a locomotiva lhe atinge a cabeça, como tantas outras coisas que o acertariam lançadas pelas mãos dela. Estilhaços desenham círculos de pólvora nos galhos da falsa árvore e o trem é demolido. Outro forte abraço meu sem resposta. A maré recua. A avó, depois de deixar a mãe no quarto, vai em direção ao barco no horizonte para trazer o pai forçosamente. Meu amigo olha os trilhos estilhaçados. Meia noite.
Como todo réptil em ecdise cambaleante, rastejou ao moer o asfalto com a pele que trocava. Aos berros lançava murros contra o rosto da sogra; ela lhe chamava de covarde. Amarelada ao extremo, o horror da vida lhe corroendo ouvidos. Jura assassinato, alardeia um chute de raspão na saia. Incrédulo com seu destino, tenta arrancar o portão da casa. Lá dentro, os trilhos despedaçados formam guilhotinas. Meus esforços cada vez mais insípidos e o filho avança seu desprezo pelo meu abraço. Segue em sinapses paralisadas em além inexistente. O bigorrilho já dentro da casa, alcança um litro de cachaça que o esperava. Meu desespero é tamanho, que uma série de questões sobre qual minha função de verdade dentro desse manicômio surgem. Não existe heroísmo plausível que sobreviva uma série tão poderosa de desamparo. Frustrado pela não reciprocidade, acompanho a serpente pisotear os destroços. Percebe o filho catatônico e repete um mantra até entrar no banheiro.
Morreu?
Avó distancia-se. Tranca a casa pelo lado de fora. Tento recolher os pedaços do brinquedo pelo chão, mas meu corpo inexiste. Não tenho mãos. Volto ao meu amigo imóvel. Hesito pela primeira vez sobre abraçá-lo. Me pergunto se realmente sou quem devo ser, já que minha funcionalidade não permite um resultado diferente de tudo o que ocorre.
Relembro o momento que entendi estar vivo. Percebo meu nascer sem entender meu propósito. Se é que existia. Nuvens transbordavam espera. Assumi previamente meu dever como amparar aquele corpo sob quaisquer circunstâncias. Desenhou-se esquecimento sobre mim mesmo. Estava ali, mas era só isso. Rondava a casa, olhava a vizinhança, tocava os moradores, entretanto não era real. Proporcional ao meu existir era o vazio dos meus abraços. Não havia reação nem acolhimento, e talvez, pela completa inabilidade de entender a função, a frustração sentida até aquele dia era minha maior culpa.
Respirei como quem se encontra. Nem por isso deixei o rancor escapulir. Se há culpa por não perceber quem era de verdade, há redenção. Meu amigo, repetidas vezes não só apenas incentivou minha confusão, mas aprofundou a sensação de morrer em vida. Todos eles de alguma forma o fizeram. O pai em covardia, a mãe na distância e o filho com seu desprezo. Vivi tanto tempo em delírio cultivando uma empatia oca, sem ao menos perceber que das minhas mãos só existiriam ranger de dentes. Por dentro do meu peito invisível o ódio tracejou um meteoro.
Nunca mais desaparecer por entre a paralisia deste menino. Hão de existir duas obrigações morais: meu amigo fará meu importar e eu serei imensurável presença. Imediatamente minha vontade rebentaria, pois perdi tempo demais pensando em importâncias falsas.
Alcanço a mão de meu amigo que pela primeira se move com a minha. Nossos dedos em uníssono ressoam nos trilhos despedaçados. Dois corpos aos novelos moldurando-se em tintas óleo. Percorro toda a extensão de sua paralisia profundamente; em segundos sou eu quem o move. Aflora o propósito sem esforço. Os trilhos em nossas mãos são espátulas e meu amigo nem ao menos esboça uma reação quando lhe corto os braços com as pontas do plásticos. Cacos do brinquedo ecoam armas e uso meus músculos ocos para golpear toda a extensão do punho até a altura do cotovelo. Em brisa aprofundo uma borda serrilhada dos trilhos pela pele. Polietileno hematófago arando os tecidos, sulcando o solo onde semeio minha vida. O sangue aos poucos irriga o trajeto da plantação. Amplio a lavoura em dois traços paralelos. Os olhos de meu amigo não existem mais. Dois reflexos meus apoderam-se das órbitas. Ao transpassar a foice feita de Ferrorama pelo meio de seu peito, na direção do coração, outro terreno se abre. Ao longo dos anos cultivarei o desespero que lhe guiará. Do masturbar-se pensando na vizinha até queimar-se com cigarros para manter a presença do pai viva, mesmo depois da sua morte. Finalmente eu estava vivo. Sou seu corpo e o estraçalho como deveria ter feito desde o começo. Cada corte que meu amigo fazia cultivava todo ressentimento através daquela pele que se tornou meu latifúndio.
Anos depois do desprezo, entendi que minha função era apenas ser o Vazio, que levaria meu amigo, meu primeiro contato humano e algoz, à morte.
Imagem: O Barco Negro em Berck

(MANET, Édouard. Quadro. 1873. Disponível em: < https://www.meisterdrucke.es/impresion-art%C3%ADstica/%C3%89douard-Manet/543292/Barco-negro-cerca-de-Berck.html >).
Nota: Essa é a terceira e última parte de Ferrorama.
Você pode ler as duas primeiras respectivamente nos links abaixo.