Handroanthus rosealba

crônica de viagem / não ficção

Handroanthus rosealba

É incerto o exato momento em que seus olhos elucidam o mistério denominado anemocoria, menos pela exatidão do movimento aéreo das sementes possuidoras de alas, mais pela quantidade de suspiros provenientes de seus olhos. O tempo acompanha possíveis caminhares das mãos nos ramos glabros, cilíndricos e de duas floradas no reticente Ipê Branco, enquanto o vento permanece auxiliando o polinizar desta espécie de bignoniácea. Vento, para além do cantar, residente continental desde Gonduana e seus dinossauros até os contemporâneos tempos da biográfica região neotropical.

Esta espécie é tão ímpar em sua permanência no planeta, que depois de toda a separação dos continentes, Darwin, o descobrimento da genética, a revolução industrial e programas com capacidade de compilar todos os dados produzidos pela humanidade em segundos, a outrora chamada Pau D’arco (Tupis faziam dela sua arma de caça), nesta específica data de setembro, floresce pela quinta vez em cinco anos; de todos seus dez de existência residente em uma cidade do interior do estado, há trezentos e trinta e três quilômetros da capital. Mais especificamente na Alameda Dr. Júlio Esperança; médico nascido em Laurito, província de Palermo, que em 1885 na cidade de Jaú vivendiou-se. Herdeiro de títulos da nobreza, passou a vida tentando construir uma sociedade moralizada, instituindo inclusive o que seria mais tarde o Rotary Club da cidade, ou como participante da Loja Maçônica Marquês de Pombal, localizada na antiga Rua das Flores, hoje chamada Marechal Bittencourt; lá era chamado Dr. Júlio Speranza, seu nome original.

A rua das novas floradas dos ipês levou seu nome, dizem, pelo atendimento dado a todas as pessoas da cidade, sem descriminação. Dizem. O médico, que morreu em 1915, não chegou a presenciar nenhuma das floradas em dias mais curtos, na época mais seca do ano, em que a temperatura é baixa, muito menos assistiu a alameda morrer pedregosa e seca, encarnada através de motoniveladoras em asfalto, adornada por infinitas fileiras de ipês ao longo da extensão de seus sete quarteirões. Na sua maioria brancos. Entretanto, essa espécie das rosealbas, especificamente aqui, são as menores. Chegam quase à metade dos vinte e dois metros das vizinhas amarelas, rosas ou roxas; auxiliando uma tapeçaria de flores que desde agosto acumula-se do centro da rua até os meios fios.

O passeio por toda a extensão deve ser obrigatoriamente feito em pés descalços, de preferência emulando patins no gelo, beijando a brisa de setembro, enquanto as casas típicas de cidades interioranas constroem molduras ao arvoredo. Toda essa elipse envolvida em lição de vida, pode ser bravata de destino, visto a rua começar na esquina de uma escola estadual de ensino fundamental, arrebatando praticamente todo o quarteirão de estreia. O prédio, protegido por corredores de calçamento e gramados com mais árvores, é um jardim botânico urbano.

Em sua lateral, o portão de ferro marca a divisa entre o pátio de saída e a vida flanando pela cidade. Neste domingo, é possível a brisa reter por mais tempo as vozes das crianças, seus passos e seus gritos, enquanto suas pernas navegam pelo tapete de flores. Desviando de alguma semente lançada ao chão pelos ipês, seus pés percebem rapidamente a melhor característica da alameda: a temperatura amena do chão; um talvez unindo graus celsius e as cores terrosas das paredes inalando os anos. Mosaicos incertos formando métricas que transportam seu corpo pelo menos há cinquenta anos atrás sem a presença d’algum filme em preto e branco.

Os tijolos, geograficamente formam entradas em distintas alturas nas casas. Um sobrado cor café dos anos cinquenta ao lado da vizinha parede bege de um lar térreo com formas modernistas. Olhos percorrem o tempo, enquanto seus pés sentem uma brisa de piche protegida por pétalas em contraste com as tintas, o que talvez explique o silêncio estampado nos rostos dos moradores. Há um zunido mantra proferido pelos segundos tão redondo quanto as curvas nas calçadas dos cruzamentos que cortam a Esperança. É como se toda a engenharia do passadiço encaixasse aos assimétricos poemas formados pelos cantos quadrados dos tetos, janelas e paredes das residências. Entalhes de cimento em berçários florais multicores. Sete quarteirões e sete ruas formatadas desse modo; vistas de cima parecem a estrutura de um portão entremeado por troncos de madeira de alguma fazenda, primeiras moradias da cidade, no século dezoito.

Toda essa história marcada nas casas, volta e meia alardeia um susto. Não raro dentro de toda a urbe, especificamente nesta alameda por ser a mais famosa, vez em quando certos vazios em remetente apresentam-se. O tempo que lhe soará familiar através das carícias feitas pela tapeçaria dos ipês nos seus pés, é o mesmo a lhe cingir destroços aos olhos. Muros que destoam do arcabouço moral matizado pela cidade, lembrarão ruas em guerra. São pedaços arrancados das paredes, destruídos tal um rosto violentado e deformado. Janelas enferrujadas e com vidros quebrados, cobertas por folhas metalizadas, gastas e de um tingimento normalidade oxidada. Disfarces do descaso. Essas casas estão posicionadas em locais escondidos dentro da extensão da alameda Esperança, torneadas sempre por sombras e marcadas por pequenas toiças de flores secas, formando mínimos lamentos em suas portas. Há uma progressão aritmética na quantidade destas desafortunadas, que mais parece uma teoria da conspiração. No primeiro quarteirão existe apenas uma; no segundo duas; no quarto, três casas; e no sexto quarteirão são quatro casas, uma delas marcando o final da alameda. Cimento, portas e destroços espalhados.

A quebra desse padrão só ocorre por conta de um cheiro. Na esquina da alameda com a rua Olavo Bilac, lugar onde no ano de 2005 será inaugurada uma loja de materiais odontológicos, funciona uma padaria. Hoje, um exato domingo, cinco anos antes, entre setemeia e oitoequinze da manhã, é possível antever uma guerra entre pães tanques olfativos e bombas flores arremessadas nas cabeças dos passantes. O general a brigar com a florada da Esperança é seu Júlio. Nascido na cidade, quando as fazendas ainda a cercavam, macerou a vida em cima de uma carroça velha. Sol ainda adormecido, assustava-se ao perceber que antes mesmo de acordar, o jovem padeiro vendia seus filões, pães doces e deleites aos novos moradores daquela rua com nome de médico. Quando precisou trabalhar para ajudar nas economias da família, sempre caminhando entre vermelhos e precipícios, seu Júlio vendia também leite da única vaca que a família possuía.

A prematura morte da rés, obrigou o futuro dono da Padaria Ipê investir suas economias em uma pequena charrete com rodas de madeira, puxada por apenas um cavalo; muito diferente dos veículos latifundiários da cidade, os quais rezavam lendas sobre atropelamentos e castigos. Não seu Júlio. Todo dia, no mesmo horário em que atualmente ocorre a guerra de cheiros, lá estava ele propagando suas criações. Sempre tratado com um misto de simpatia condescendente ou hierarquicamente como funcionário que deveria servir senhores da moral e bons costumes. Não se importava, pois por anos preparou sua vingança.

Planejou morar no mesmo bairro em que os conterrâneos compravam seus feitos. Anos de preparação em farinha, água e fermento, renderam um sobrado com quatro quartos, duas suítes, três carros do ano na garagem, uma filial na cidade vizinha e premiações por toda a região. Orgulho levemente amargo pela condescendência que insiste em permanecer. Talvez isso explique os motivos de seu Júlio simplesmente manter-se durante todo o dia de costas para a entrada da padaria. Quando visto de fora, a impressão é de um monumento incrustado no chão de mármore do estabelecimento. Porém, um corpo levemente arqueado pelo peso das flores que por anos lutam contra seus odores panificadores. Não se move, não olha. Nem se por acaso um bando de estudantes do ensino médio passarem gritando aviltamentos enquanto um corpo que parece ser puxado por cordas do asfalto tenta fugir com hematomas espalhados por todo o tronco.

Seu Júlio não faz valia, apenas admira a beleza das flores quando sai para fumar. Naquele momento, inspira profundamente e espera que as flores desistam, mas a vida diz não. Ele voltará ao seu quartel, permanecerá de costas ao calçamento ignorando a florada em mosaico, rindo de suas tentativas em lançar gás mentolado nas asas das sementes. Enquanto as últimas determinam o final da rua, é possível perceber um detalhe que escaparia do passo desatento. Os últimos ipês da rua enfloram o seco. São exatas três árvores que se não são secas por completo, possuem flores marrons. Todas elas cercam um ponto de ônibus vermelho, mesma cor dos ônibus municipais, donos de outro detalhe quimérico; quando passam por este ponto, não param. Ao se aproximar das árvores, é possível encontrar quatro fios esticados que nascem dos galhos, dois deles com feridas profundas em sua extensão.

O ponto de ônibus está úmido como se alguém acabasse de molhá-lo. Um cheiro sal de lágrima, não de mar. Na parede atrás da parada há uma mancha, que os frequentadores da padaria dizem ser parte do folclore local. Alguns muros da cidade, especialmente nesta alameda, certas formas surgem sem a menor explicação. Nem mesmo as equipes da prefeitura conseguiram determinar ou até retirar as aparições, como são chamadas. Esta em particular, possuía o formato de um corpo humano, ou pelo menos é a impressão que se tem ao olhar. Talvez seja o cheiro dos ipês que intoxicam os sentidos, talvez seja a marca do corpo que estava pendurado pelos fios nas árvores. Ninguém na cidade sabe explicar porque isso acontece apenas naquela esquina ao final da Alameda Dr. Júlio Esperança, a rua mais visitada e repleta de Handroanthus rosealbas.


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