Heterotopia

poesia intersignos, intermidialidade

Heterotopia

Em mil novecentos e oitenta e quatro, ao liberar seu texto escrito catorze anos antes na Tunísia, Foucault mostra o definição do conceito de Heterotopia. E vai utilizar um espelho como alegoria filosófica.

Nesta missiva tardia, Michel explana sobre como a sociedade entre os séculos XIX e XX construiu seus debates. No primeiro, o essencial dos seus recursos mitológicos (Foucault, 1984, p. 411) foi pautado pelo desenvolvimento e estagnação. No segundo, o campo das discussões seria o espaço. Um belo período deste trecho é:

Talvez se pudesse dizer que certos conflitos ideológicos hoje em dia se desencadeiam entre os piedosos descendentes do tempo e os habitantes encarniçados do espaço. (Foulcault, 1984, p. 411)

Apresentado na Conferência de Estudos Arquitetônicos (14 de março de 1967), inicialmente conta um pouco sobre a história do espaço como preocupação teórica nos sistemas da humanidade. Primeiramente como localização, depois (após Galileu) extensão e, finalmente na atualidade estruturalista, como posicionamento. Entende este último apresentar-se tal questão demográfica: menos relacionado à existência de espaço suficiente na acomodação humana, mais sobre o problema de saber quais relações de vizinhança, do tipo de estocagem, da circulação, localização, e da classificação dos elementos humanos devem ser mantidos preferecialmente em determinada situação, com objetivo de chegar a determinado fim (Foucault, 1984, p. 413).

Isso posto passará a definir a descrição desses posicionamentos. Escolhe como taiga filosófica um adensamento de vegetação semiótica, a preconizar posições que se relacionam através de neutralizações, suspensões e inversões do conjunto das relações em que se encontram. Por elas designadas, refletidas ou pensadas (Foucault, 1984, p. 414).

Posicionamentos ligados uns aos outros, contradizendo-se.

Divide-os em dois grandes grupos: utopias e heterotopias.

Utopias estão bem definidas (ou não) dentro do contexto filosófico, por isso deixo aqui a desproposta sobre esse tema. Amparar a obra postada e o argumento deve sorver placidez; irei direitamente à heterotopia.

O francês afirma que entre esses dois tipos de posicionamento existe uma experiência mista; que definiu como o espelho. Afirma que o objeto é uma utopia pois é um lugar sem lugar. Estáticos à sua frente, podemos nos ver no lugar onde não estamos. Abre-se um espaço virtual após sua superfície. O estar lá longe, onde não se está. Uma sombra que nos dá visibilidade na localização de nossa ausência. Chamará esse fenômeno de a utopia do espelho (Foucault, 1984, p. 415).

Contudo, há heterotopia. O espelho existe de verdade e cria um efeito retroativo no lugar que ocupamos. É a partir dele que nos descobrimos ausentes de onde estamos, pois nos vemos lá longe. Esse olhar de longe dirige-se a nós do fundo daquele espaço virtual, no outro lado do espelho. Ocorre então um retorno: quando dirigimos nossos olhos a nós mesmos, nos constituímos no lugar onde estávamos inicialmente. O espelho funciona como heterotopia no sentido que ele torna esse lugar que ocupamos (quando olhamos no espelho), ao mesmo tempo absolutamente real -em relação a todo o espaço que o envolve- e absolutamente irreal, já que para ser percebida a heterotopia precisa passar por aquele ponto virtual que está lá longe (Foucault, 1984, p. 415).

O texto irá descrever os princípios que constituem a definição em seguida. Atenho-me ao terceiro, que conversa com o poema. A heterotopia tem o poder de amalgamar em um só lugar real vários espaços e posicionamentos que são inicialmente incompatíveis. O experimento possui uma projeção em vídeo, sendo assim, utilizarei o exemplo do cinema. Uma sala retangular, que em seu fundo, sobre uma tela de duas dimensões, vemos a projeção de um espaço com três dimensões. (Foucault, 1984, p. 418).



As professoras Bruna Fontes Ferraz e Maria Elisa Rodrigues Moreira, em seu artigo “Literatura em campo expandido: reflexões teóricas”, inicialmente demonstram que o crítico estadunidense Gene Youngblood (baseando-se no termo criado pelo cineasta Stan VanDerBeek) ao escrever sobre cinema experimental, música, teatro e artes visuais no periódico The Los Angeles Free Press irá aos poucos calcinar o termo chamado Cinema Expandido. Youngblood preconiza que a utilização da tecnologia com finalidade estética, na promoção da arte, é uma ferramenta de expansão fronteiriça em direção ao espaço heterotopico (Fontes & Moreira, 2025, p.03).

Tal revolução cultural pelo advento da tecnologia criaria conversações em comunidades democráticas com realidades autônomas dentro desse espaço virtual. Posicionamentos sem limites de fronteiras, não definidas pela geografia mas pela consciência, ideologia e desejo. Uma rede intermídia libertária de consciência expandida e não uma maquinaria revolucionária; que através da tecnologia permite o cruzamento potencial de mídias díspares, pelo espaço virtual (Fontes & Moreira, 2025, p. 04).

Essa ampliação será estudada pela professora Rosalinda Krauss, utilizando como exemplo a escultura. Afirma não ser mais possível conceber campos artísticos em categorias universais, que primordialmente conurbavam um grupo de singularidades. A pintura, a escultura (e a literatura) foram tão distorcidas, esticadas e moldadas através dessa expansão de fronteiras, que a classificação universal dentro desse específico lugar físico já não mais existia. Krauss citará o estranhamento gerado por obras que impunham a perda de um lugar e do espaço físico, que era condição obrigatória para definição do monumento escultório (Fontes & Moreira, 2026, p. 05).

Aponta um conceito de beleza poética imensa. Com a ampliação do campo, ocorre uma espécie de ausência ontológica que marca esse processo de expansão. Na escultura moderna, a perda absoluta de lugar e autorreferencialidade foram determinantes para a condição essencialmente mutável de seu significado e da sua função (Fontes & Moreira, 2026, p. 05 apud Krauss, 1984, p.134). Essa autonomia vai gerar o seguinte estratagema:

a) a escultura inicialmente pode ser definida como “não arquitetura” e “não paisagem”;

b) a “não arquitetura” é uma outra maneira de definir o termo paisagem;

c) a “não paisagem” é uma outra forma de definir o termo aquitetura;

d) a lógica admite que a escultura seja tanto arquitetura e paisagem em sua composição.


Serigrafo então à literatura um conceito canônico: Denifini-la-ei “não pintura” e “não escultura”. Por valer-se de muitas materialidades artísticas, o texto contempla diferentes expressões, fazendo com que todos esses meios (incluindo os digitais), façam parte de sua constituição. Ao contemplar as materialidades da pintura e da escultura, a literatura pode romper com esse conceito tradicional constituído pela negatividade (Fontes & Moreira, 2025, p. 06).

2007:

A pesquisadora Josefina Ludmer escreve em seu ensaio “Literaturas Pós-Autônomas”, sobre o fim da noção de campo desenvolvida por Pierre Bourdien, estendida a dimensões específicas da vida social como o “campo literário” (Fontes & Moreira, 2025, p. 06). Essa definição concebia a ideia de autonomia e independência em cada arte. A expansão que permite o contato entre campos, característica da contemporaneidade, quebra essa matriz bourdesiana permitindo o amálgama entre meios artísticos.

A conceituação leva Ludmer a definir uma mudança na teoria literária que seja coerente à nova realidade; que toma várias formas, gêneros e mídias na “fabricação” do cotidiano, atravessando assim a fronteira da ficção numa reformulação da realidade. Como consequência, as categorizações teórico literárias não mais se adequam aos “objetos verbais” híbridos (Fontes & Moreira, 2025, p. 08).

É um espaço no limite. Dentro e fora do espelho. Uma heterotopia utópica. Uma fronteira borrada sempre em expansão. Materialidades e processos que ao mesmo tempo unem-se em mutação dentro de um campo expandido.



O poema Heterotopia foi contruído pensando nessa transposição dos limites canônicos do campo literário, usados como definição até os anos sessenta. Como escrevem as professoras Bruna Fontes Ferraz e Maria Elisa Rodrigues Moreira, ao citarem os estudos da pesquisadora argentina Florência Garramuño:

Nesse sentido pode-se afirmar que o campo expandido diz respeito a essa ruptura com os próprios, à articulação de materiais heterogênios, à imbricação entre o ficcional e o real […] como espaço de imbricamento com o mundo, com outras linguagens, com outros modos de conhecimento. Uma leitura, portanto, “fora de si”, atravessada por tensões e instabilidades (Fontes & Moreira, 2025, p. 11).

Nasce com a ideia da teoria do espelho, porém ao invés de refletir o homem, alumia o traço. A palavra signo é obrigatória na adição de uma camada sobre sua representação semiótica. Para além da questão sobre o que o signo representa para si mesmo, a pergunta é como podemos experimentar com a conceitualização de espaço diante das condições de utopia e heterotopia?

A utilização do vídeo, como elemento de intermidialidade, confere ao texto possibilidade de amalgamar em um só lugar vários posicionamentos e espaços incompatíveis. A literatura é vídeo, que pelas clássicas definições seria apenas um “não texto”. O vazio ontológico preenchido pela expansão do campo, com um toque de surrealismo, por conta do efeito “glitch” da edição.

Inicialmente, era o poema:

Apenas o texto literário com adição do espelho plano. O efeito sobre a ruptura com a imagem real que não está lá, seria a fonte em estilo mais leve de mesma família e a diminuição em cem pontos do vermelho na escala RGB. O traço como distensão da fronteira entre a escrita/pintura. Uma linha de tensão na expansão das mídias. Esse seria o jogo semiótico do poema.

A escolha pelo vídeo ao invés da simples repetição da escrita, contém um nível de experimentação mais profundo, o que busco como autor em relação ao signo. Não é apenas a formação do eu que não está lá. A criação do signo no espaço irreal, dentro de uma outra materialidade com a presença de elementos semióticos da mesma; afetando-o de forma real.

Essa experimentação no espaço heterotópico quando olha de volta, ao invés de refletir o real, mostra apenas o signo antes da intermidialidade. A quebra da linha ficção-realidade expandindo a fronteira do campo literário.


Referências Bibliográficas:

FOUCAULT, Michel. Estética: literatura e pintura e música. Rio de Janeiro. Editora Forense Universitária. 2006.

MOREIRA, Maria Elisa Rodrigues. FERRAZ, Bruna Fontes. Obra em Expansão: textualidades e releituras múltiplas. Belo Horizonte. Editora Tradição Planalto. 2025. Disponível em: <https://padlet.com/elisarmoreira/licex-grupo-de-pesquisa-literatura-em-campo-expandido-mrzch3n43viqlpxa/wish/KxJvagYg0A7LZAg0>. Acesso em 05/03/2026.


Subscribe to Fabio N.Biazetti

Don’t miss out on the latest issues. Sign up now to get access to the library of members-only issues.
jamie@example.com
Subscribe