Magistra

um conto. versão editada.

Magistra
Imagem 1:
(MINCHENKO, Vlamin. Foto. s/d. disponível em: < ahref="https://pt.vecteezy.com/fotos-gratis/ma%C3%A7%C3%A3">Maçã Fotos de banco de imagens por Vecteezy)

Arruava pensamentos desencadeados pela areia da praia vizinha, quando percebi a aproximação de Haroldo. Outra vez. Mesma mochila nas costas. Outra vez. Olhar determinado, para em frente minha nova casa. Outra vez. Haroldo semelha uma libélula congelada diante um lagarto. Ouvia suas lembranças. Ele batia a cabeça no pedaço de madeira em suas mãos, enquanto memórias desembarcavam; seu pai enterrando punhos em seu rosto por não saber Latim. A rua inclinada, muros pintados por espinhos, e casas dividindo o mesmo meio da rua. Haroldo morava em uma, eu na outra, e soterrada, a mudez da morte no meio fio. Enquanto ele permaneceu em frente a nova casa, apavorei-me em memórias. Desde cedo a vida adulta mostrou-se solidão. Quando grávida, o pai fugiu; seis anos depois cheguei à rua inclinada. O médico me trouxe pequena falta de ar aos esforços. Uma mãe escavando pele árida através do tempo. Meu vizinho pré adolescente. Eu formada em Letras.

Só entendi o começo desencavando uma recordação: as mães habitavam rotinas, entre elas, lavar a calçada. Às vezes fofoca, outras, cinismo em jatos d’água. Um desses me fez correr à calçada da frente. Semi morta pelo esforço percebi nas verticais envidraçadas da casa um movimento. Haroldo alisava a aresta da cortina. Ele, hoje ajoelhado no portão da nova casa, observava febril as mães, as pernas, o escorrer da água, e a mim. Descobri depois como seu pai lhe aterrorizava. Presenciei uma surra em Haroldo por não memorizar um grupo de palavras em Latim. Lembro de algumas: corpo, tíbia e professora. Fiquei estática sem fazer nada. Ao vê-lo caminhar deteriorado, a desolação das árvores sem folhas no inverno era mais alegre do que seu rosto. Olhos enterrados em minha direção buscavam abrigo. Tínhamos em comum a rejeição, então, seria justo uma professora ensinar nova realidade. Comprei para meu filho um laboratório de química e mágicas, cujas misturas criam o “sangue do diabo” e “saliva ácida”. Chamei Haroldo para brincar; ele veio. Como sempre viria.

Os meninos brincavam. O ar me faltava, resolvo então deitar. Respirava anelante. Pensei ver Haroldo parado na porta do quarto. Sobressalto. Esbofada percebo que não. Tento dormir. Sonhei o vizinho pedir ao meu filho usar o banheiro e novamente parar na porta do quarto. Cavando seu caminho até minha perna para acariciá-la. Dedos acossavam meu músculo, subiam na pele querendo rasgá-la. Boca roçava dentes em meu tendão, lambendo-o. A língua réptil, mãos correntes. Eu em pânico feito libélula, ele, lagarto assassino. Despertei pingando desespero. Seria pesadelo não fosse Haroldo encarando-me. Ele corre, minha voz não consegue segui-lo. Tento levantar. O ar não permite. Mesmo ainda ofegante, assossego. Não era sonho. Algo em meu corpo não funcionou, a lembrança do médico ressurge; essa falta de ar pode ser o coração. Suspiro. Ele volta. Mais confiante. Finjo dormir para cravar-lhe um vexatório. Suas mãos em alarde. Preparo o bote. Serei lagarto. O ar some. Pavor. As mãos de Haroldo retornam torno mecânico. Saliva na minha perna. Faringe trancada. Circulação em meu braço esquerdo presa. Sorrindo, e misturando idiomas me chama professorinha. Tento um tapa. Os dedos trancafiados. Ele me vê adormecida. Explodo imóvel. Minhas cordas vocais esgarçam trovão contido. Haroldo se assusta. Foge. Eu, paralisada sem nenhum ar.

Depois desse dia nunca mais o vi. Após o episódio aterrador, os quartos da casa afogaram-se em poeira, paredes foram violadas pelo tempo, e a memória esgadanhou-se. O filho cresceu, seu brinquedo sublimou. Mudei-me logo em seguida. O vizinho lagarto, não pisava mais na casa. Até o dia que vi Haroldo cruzar a praia pela primeira vez. Obcecado. Andava abrindo túneis e caçando libélulas. Cada vez mais perto do portão. Ele encontrou a cidade do litoral, o cemitério e a cova. Batia sua cabeça na pá usada para desenterrar o corpo, outra vez paralisado. Cada dentada da ferramenta o caixão trepidava. Terra espalhada. Ossos saltam. Vai direto à perna, acaricia a tíbia. Limpa pedaços de tecido e poeira. Inspira profundamente. O periósteo cadavérico terrifica. Há um beijo. Lábios úmidos na parte de baixo do osso, molduram pedaços de carne azeda, barro e graveolência. Alteando a língua, lambe a medula óssea seca por uma rachadura. Dentes raspam o cálcio petrificado, retirando vermes que explodem em líquido pestilencial e morno, misturando-se à saliva de Haroldo. Direciona a ponta do osso dentro de sua boca. Trincando os dentes, grita como fanático.

Pai, eu achei! Pai eu sei falar, pai. Corpus, Tibia e Magistra! Magistra! Magistra!



Subscribe to Fabio N.Biazetti

Don’t miss out on the latest issues. Sign up now to get access to the library of members-only issues.
jamie@example.com
Subscribe