Mureta
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Text within this block will maintain its original spacing when publishedNunca vi teu corpo
Ele apenas desapareceu
Fui avisado
Depois de dois meses
Até a casa onde morei fora demolida
Quem viu teu corpo
Mudou ele de lugar
Quem não quis teu corpo
Te jogou naquela mureta branca
Com o nome escrito por dedo
E nem ao menos acertou o circunflexo no E
Vestido por margaridas derretidas
Não andava no teu carro à aula de cinesiologia
Não ouvia Paranoid Android no volume máximo
Nem ao menos era vivo
Foi na única foto da sacada
Transformada em cama
Quando éramos nuvens
Que cravei o lápis como se fosse âncora
Em solavanco arredio de esperança
Pregar uma estaca que te segurasse
Mesmo teu corpo permanentemente no ar
Foi ali
Que marquei um ponto covarde
Naquela foto
Que o grafite ao invés de te salvar
Me salvou.