Pandêmicas IV
escritas na pandemia / editadas por sangria.
Text within this block will maintain its original spacing when publishedI
A terapia antissuicídio lapidou caminhos torneados para apenas uma criança de seis ao doze anos poder passar. Vestida emergencialmente dentro de um banheiro cujo rejunte dos azulejos eram vetores alvo do sol despejado. Não havia espaço de manobra fugitiva por entre as toalhas estendidas e o armarinho repleto por exóticos saponáceos sólidos. O bombardeio era incessante e as memórias criadas eram tiros diretos na nuca; obrigatório caminho percorrido pela criança caso quisesse fugir.
Menos pela certeza, mais pela teimosia, havia um sonho por dentro do corredor lateral formado por asas de casa mata, em que não seria alcançada pelos javalis que a caçavam impiedosamente.
O sons das asas a salvariam
porém
para além dos sons
havia uma forma
mesma forma
repetida
sob os seguidos anos.
De mesma intensidade do querer fugir, reluzia uma tempestade sólida na garganta flexionando o tronco de tal maneira, que deixava a cabeça ter morada perene grudada aos dois pés; enquanto caminhava, tentava lamber os sais minerais do asfalto.
Por toda uma vida existiram apenas ordens a ditarem o caminho do medo como arreio puxado até mostrar os dentes:
- o vaso arremessado navegando seu caminho por entre as flores da mesa
sempre certeiro em exprimir seus desejos
tudo matemático
mimético
fivela e vespeiro.
chutes durante sete quarteirões
braços torcidos
o banco
a cara e seus tapas.
jaula e eco
eco e força
força e poda
poda, eco, força e jaula.
II
Uma das características da perda óssea dentária é sua pluralidade de causas. As relacionadas ao extremo grau de pressão feito entre a mandíbula e maxila -por longos períodos- é interessante por ter um grau involuntário; o que lhe dá um controle sobre o primal do cérebro, torturando seu corpo aos poucos até entrar em estado de alerta infinito.
Ao tentar dormir no sofá, por exemplo, quando a desavença das pálpebras com os olhos alcança patamares insustentáveis, e as primeiras aos poucos deixam-se vagar por esquinas névoas de cansaço, o músculo masseter conecta dois eletrodos com descargas elétricas no encéfalo e ao primeiro partir do eu ao nada trava os dois ossos da face; imediatamente o pânico cavalga tal qual foguete até a órbita acordar estridente.
Outra forma alvissareira é ligada ao bruxismo, ainda mais se acompanhada de duplo diastema, por conta da pressão dos dois ossos descrita no período acima.
Tudo se torna mais interessante, pois é possível um trinar dentinas em eixos diagonais ao mesmo tempo que os diastemas se encaixam e os ossos torcem todos os dentes ao avesso. Seu corpo tortura seu corpo, enquanto lhe sorri. Quando se acorda com a boca em cadeado aos pés dos dentes encaixados pelos diastemas, o pânico é sublimar-se em pavor ao sentir seu palato inflado de sangue pela explosão da dentina. A doença periodontal postada em manjedoura depois de tantos tilintares de estacas, possui sintomas de folhetim: sangramento abundante, dor, instabilidade dos dentes (com queda).
Foi citada a dor?
jaula e eco
eco e força
força e poda
poda, eco, força e jaula.
Refrão extra:
Quanto tempo uma pessoa pode permanecer presa?
Quanto tempo uma pessoa pode permanecer em quarentena?
Quanto tempo uma pessoa pode permanecer obedecendo ordens?
Text within this block will maintain its original spacing when publishedIII
Não havia uma quadra central na escola.
Na verdade, havia.
O funcionamento da entidade social em pequenas cidades do interior é construído aos pés de edificações míticas, independente de suas tecituras internas esconderem taciturnos cotidianos. O diferencial entre a mentira do existir e a verdade do haver era a importância da matéria chamada Educação Física no fenótipo arterial escolar. Justapondo-se a quase obrigatoriedade genética desses prédios ao aperfeiçoamento físico dos alunos, entre dez e catorze anos, todas as atividades eram realizadas no Ginásio Municipal da Cidade:
"Vazadas línguas amadeiradas quase gregas formavam portas que separavam a calçada da entrada epitáfio muscular de cimento armado. Passadiços interioranos tendem a ser mais largos para acômodo dos egos. Os ladrilhos divididos em nove pequenos quadrados de cimento separando andares do asfalto, estendiam-se pelo quarteirão formado pela seguinte ordem; Escola Estadual, Ginásio de Esportes e Tiro de Guerra. Ao sair do pavimento austero abria-se um tapete de concreto, após as portas, revelando orbitalmente do lado esquerdo uma arquibancada de concreto, repetida nos quatro lados do ginásio. Perfuradas por tuneis, as curvas de nível telespectadoras em cor combinavam com a insípida vida daquele local.
Em cheiro, tinham o mesmo do medo.
Como se velassem a quadra central -construída em tacos sépia com listras de primárias íris-, o tamanho das arquibancadas era suficiente para moldar blocos musculares de uma pirâmide Inca quando se passava a mão pelas junções enraizadas e de perfeita simetria, tal qual uma cidade lúdica comprada na loja de brinquedos da cidade. Pensar em subir ou descer aqueles degraus na direção dos grupos de alunos era como tentar alçar voo de passarinho recém nascido com asas amputadas. O corajoso, ou louco, corpo que tentasse tal manobra, receberia apenas a gravidade ao tentar equilibrar-se nessa gangorra perimetral que desencadeava quedas e cambalhotas sem júbilo".
Todas as classes e seus times estavam lá.
Morada de uma infestação de masculinidade adornada em suor e profusão hormonal que resultariam para alguns daqueles meninos ondas de violência doméstica contra mulheres. Em outros nem demoraria tanto tempo; reproduziriam a violência paterna antes de chegar aos dezoito anos.
IV
Estes, eram reconhecíveis ao longe.
Seus olhos sempre foram secos e iluminados em períodos assimétricos.
Por meia luz de fora para dentro, um minuendo mistério matematicamente pormenorizado que enganava interpretações. Uma única cor independente de suas órbitas, o galope de luz através do nervo óptico atravessava o cristalino tão somente para refletir uma mancha marrom que tomava toda a cavidade ocular.
A cor da terra que sublimava hemácias e os arroxeados punhos em pêndulo do tempo, como se um animal pisoteasse o chão com tanta ferocidade que um hematoma amálgama de sépia escura e sangue varresse da existência metade de um continente, e apenas sobrasse aquela esparsa luz mentirosa. Refletida na prestidigitação oftálmica indicando um vazio; um marrom vazio, uma terra vazia, uma alma além do nada. Só um cabo de vassoura aterrado em suas costas, durante dez quarteirões, fariam justiça ao imenso terror daqueles olhos. Cercados por quatro arquibancadas de concreto, entre o obrigatório Tiro de Guerra e o ponto de ônibus onde a madeira do varrer quebrou no meio da coluna vertebral. Os olhos nem ao menos brilharam, deixaram um corpo ali no ponto de ônibus. Encostado no muro em frente ao cotidiano que a cada meia hora abria as portas exibindo uma catraca e o cartaz oferecendo passe livre se você tivesse a carteira de estudante.
V
A equilátera esperança branca cercada por arquibancadas não conseguia enxergar o que ocorria dentro dos túneis, independente de dois deles serem usados para aquecimento dos times da escola. Não naquele dia específico. No cartesiano diacrônico apenas as arquibancadas estavam ocupadas momentaneamente. Residência por alguns minutos de Nevada e Missouri.
Estáticos locais tectônicos no mapa mundo não moviam um dedo sequer; era um não ali, como se nada além da milionésima fração de ausência brutal, tempo em que seus dois encéfalos estavam completamente imersos, existisse. Apenas auras, talvez nem elas pois se ressoassem energia, gerariam som. E isso seria inaceitável aos olhos marrons. Mas eles estavam lá, era possível vê-los, não era alucinatório ou concussão das pancadas na cabeça feitas pela vassoura.
Estribilho Estrondo:
Ou era?
Doença Periodontal?
Ela também era silenciosa. Mas está separada por anos de distância.
Mas os dentes uivavam também naqueles tempos.
Concussão deve ser mais real.
Mas qual delas?
Estão separadas por muitos anos?
Text within this block will maintain its original spacing when publishedV (continuação)
Não era.
Eles estavam lá parados, um recife de corais sedimentando curiosidade.
Nunca foram de muita conversa
Missouri trabalhava depois das aulas como Polícia Mirim
-Departamento da Polícia Militar na cidade; encarceramento capital para manter a juventude longe das drogas e álcool-
Nevada, repetente recorrente, tinha uma moto, e era imediato em escritório.
Alcoolismo sempre foi um problema naquele lugar. Um bloco de cimento moldando uma gaveta vazia, deixada para trás apodrecendo. Na cidade sem opções, sem escolas suficientes e latifúndio recôndito em casamentos consanguíneos, ser alcoolista era apenas uma questão de tempo. Tudo direcionava os corações ao copo ou a qualquer escape em direção contrária ao truque hereditário ilusório da foto familiar oficial, o arcabouço moral legalizado por sorrisos claudicantes.
Enquanto Nevada e Missouri desciam os degraus das arquibancadas, era possível ver que um pedaço de saco plástico vazava pelos arrabaldes das calças. Outra curiosidade desperta, atropelada pela pressa do trabalho cotidiano dos dois amigos. Não havia muita intimidade, menos ainda conversas recorrentes. O que automaticamente deixaria a próxima sexta-feira como data à oralidade. O único problema é que antes haveria uma quarta feira, também chamada Sete Quarteirões de Socos, Pontapés e Cabeça Contra Parede.
Mas isso é outro dia.
Sexta:
o saco plástico
era receptáculo
a um produto químico
chamado cola de sapateiro
que era isso mesmo
uma cola
química
usada para unir couro
pedaços de um animal morto
em forma de calçado
uma cola é um inalante
inalantes utilizam as vias respiratórias para espalharem-se
é um modo muito mais rápido
o cheiro desce pela faringe tateando
em um corredor de luz cada vez menor
até alcançar um brônquio
ali saliva átomos de fronteira
saltando um abismo neuro sináptico
desliza feito criança em tobogã de hemácias
até ser catapultado ao cérebro
o animal cambaleia
soldando os dois hemisférios
quando a cola uni seu couro morto
mamífero e seu mundo moldam um túnel sem eco
dentro do peito
por onde foge sem sair do lugar
durante longos quarenta e cinco segundos
morto, abre o plástico mais uma vez
solda a boca na borda
respira
a criança recomeça sua descida pelo brinquedo.
Nota da editora: "é preciso denotar que outro inalantes foram utilizados ao longos dos anos, porém, por ser o primeiro existe a possibilidade da experiência estar depositada na gaveta intitulada O Começo da Loucura".
Text within this block will maintain its original spacing when publishedVI
O deslocamento antagônico do binômio corpo X subconsciente não foi marcante dentro daquele processo. Muito menos a possibilidade do vício, visto a desistência também ali iniciar seu eterno ciclo de presença.
Foi a carícia do silêncio. O silêncio, o silêncio.
Você escuta?
A única forma reveladora de paz era a completa falta de sonoridade. Um mosaico imoto de ondas ocas, nem ao menos destruído pelos sons pulmonares pretensamente recobertos por chiados mansos. Ausente pequena fresta bronquiolar, cedente ao ar navegante assoviando uma pequena vida. Nada. Mudez de assovio. Questionar tal calmaria em tempos cujos ciclos calcinavam todas as violências possíveis, era inadmissível; já que a maior descoberta do século acabava de nascer ali, junto ao desespero dos dias. Não havia alarmes, surpresas, só o silêncio.
Embalado corpo não respondia aos tremores que ele mesmo produzia, como se fossem pequenas brisas ondulares em uma praia azul de areia afago em leite morno. Por eles a cabeça perambulava na falta de gravidade e dentro do círculo amarelo que se formava ao fechar dos olhos os pés mergulhavam do avesso levando o encéfalo, enquanto puxavam as pernas que nada podiam fazer a não ser segui-lo. Mais alguns segundos todo o corpo faria morada no ponto de luz grudento no horizonte. Os últimos, integrados à enésima maravilha do mundo, seriam local de descanso do corpo sem nenhum resquício de pancadas.
Dormiria por séculos, até o final daqueles últimos dez.
VII
Em três anos de pandemia muita coisa foi urrada
por todas as arquibancadas possíveis.
Um Ginásio Municipal do tamanho de um país
cercado pelo Tiro de Guerra
tocando ordens de morte
revelando famílias inteiras de genética quatrocentona
que preferem matar setecentas mil pessoas
a tentar dissolver do poder uma outra família
de viés neonazista e seu Reich
sua Gestapo do Telegram e Whatsapp.
Refrão adicional:
Há até espanto em toda terminologia
mas as coisas devem ser chamadas pelo seu nome
As coisas devem ser chamadas pelo seu nome
As coisas devem ser chamadas pelo seu nome
As coisas devem ser chamadas pelo seu nome
As coisas devem ser chamadas pelo seu nome
Text within this block will maintain its original spacing when publishedMoramos por três anos em túneis do Ginásio Municipal.
Todo os times de todas as classes estavam lá.
Espancados e colocados como corpos a serem defenestrados.
Algumas pessoas foram mais defenestradas que outras, mas todos foram.
Não há cola nem silêncio. O solvente que existe nem ao menos consegue trazer quietude, pois manter o encéfalo longe das situações é impossível. É preciso comer, viver, e de certa forma resistir ao simples fato de ceder enquanto o cabo de vassoura esfacela suas vértebras torácicas. O único silêncio é o tempo entre as bolhas que saem do nariz enquanto a cabeça é forçada água adentro em uma privada. O silêncio que precede o choque, àquele da porta do avião abrindo-se enquanto planam corpos desacordados em direção ao mar.
Dos desaparecidos que se tornarão fantasmas.
Haverá o silêncio da condescendência.
Missouri e Nevada despediram-se há séculos, enquanto o pescoço afundava.
Sobraram o revide
o grito
murro
a pedra na vidraça
a rua
o caminhar em grupo
O silêncio ao final de todas as contas apenas deslocou a realidade deixando como herança uma receita de lítio, carbamazepina, diastemas duplos, gengivas que sangram e dentes que explodem.
Também a eterna perseguição de dois olhos marrons.
Nota: toda essa assimetria é uma das minhas alucinações linguísticas em mexer com o tempo do texto. O leitor vai e volta sempre que possível.