pandêmicas III

escritas na pandemia, editadas com sangria.

pandêmicas III

Antes da sessão começar a cadeia de cinema Descarrilo Cotidiano dará alguns avisos:

  • desliguem seus celulares durante a leitura;

  • as duas saídas de emergência estão dispostas nas laterais inferiores embaixo da tela e serão abertas em caso de incêndio;

  • esse é quarto último post gratuito dentro do site;

  • resolvi tomar uma decisão dentro do que penso como carreira literária;

  • ainda mais levando-se em consideração que sou autônomo;

  • os assinantes gratuitos terão direito a alguns posts por mês;

  • os posts ficarão abertos inicialmente por sete dias e depois disso fechados ficarão;

  • ao longo das mudanças na aba de notas escreverei sobre elas (ou não);

  • boa sessão;

  • não esqueça de recolher o lixo deixado nas cadeiras;


a) primeira estrofe:

há cinco semanas uma mulher inglesa filmou-se no leito de uma unidade de terapia intensiva. a luz era linda. seus cabelos crespos, quase úmidos, por vezes distraiam olhos arredios ouvintes do desabamento das suas encostas pulmonares. quando conseguia reverberar seu desespero, indicava ao leitor que este precisaria de pulmões. parecia uma propaganda do governo antitabagismo, mas era somente a vida esvaindo-se pela pequena abertura restante na traqueia. tão pequeno espaço, que para poder enxergar as duas mãos a lhe enforcar era necessário um microscópio;

b) segunda estrofe:

posição para manter-se ereto em pânico:

  • eleve seu quadril, mantenha os joelhos flexionados. sinta a respiração enquanto suas unhas rasgam o cimento procurando abrigo.

posição para manter-se atento em pânico:

  • encoste seu joelho no queixo para logo em seguida aspirar mecônio ao tentar retirar seu tronco do avesso, relaxe os ombros enquanto se afoga e sinta o alongamento do ílio psoas ao tentar chutar o destino. vértebras cervicais destoam aguda pontada no encéfalo; inspire pelo nariz e expire pelo mesmo nariz. expire por entre a costura ultrassônica da máscara, arando o suor como corda ao redor do pescoço.

posição para manter-se conexo em pânico:

  • toque seu joelho direito no solo ao mesmo tempo que seu osso do quadril descreve uma pressão aterrada, eleve seu tronco sem precisar da força dos braços em exatos noventa graus de flexão paralelamente ao mamilo. não force. não sublime seus ossos do carpo muito menos condense o tendão. permaneça calmo, encoste a nuca no degrau do meio da escada, mais precisamente na parte interna, e acerte os elásticos da atiradeira bem no centro dos olhos, puxe o elástico mantendo o ângulo reto entre o ombro e punho. solte a pedra. você sentirá pela costura ultrassônica da máscara um gracejo que te concede o benefício da dúvida: entre o respirador ou xarope, seria a pedra uma solução?

c) terceira estrofe

som aos passos

mãos flácidas

rosto enrugado

a tosse assovia

a maldita tosse em grupo em turba em si bemol em uníssono em madre pérola em carvão (ativado) em rostos desconhecidos em rima em refrão em duplas em trios em quadras em esquinas em quarteirões em bengalas em sobressaltos em sustos em soberba em situação de risco em foda-se quem estiver perto em aleluia em nome de deus me salvarei em caixa em saco plásticos escuros num vídeo clipe do korn em satisfação por manter-se firme dentro de seu território de passos lentos em xingamentos aos que questionam escarros homicidas na cara

em acidentes
quase inevitáveis
quando tenta-se manter a distância social adequada

[…] cuspidos entupidos estúpidos aclamam presença inevitável da sua vontade em espalhar a porra dum vírus assassino […]

o absurdo é uma linha que conecta a história dos portugueses
(vírgula)
que não se importavam em espalhar sífilis entre os indígenas
enquanto impunham sua vontade -sempre orando obviamente-
(outra vírgula)
a ações do planalto central e sua suástica mal pintada ali atrás da porta
e às ações das pessoas que não lavam as mãos na sala de jantar
(ponto)

d) quartas estrofes:

a comunidade espírita do interior de São Paulo
diz ser necessário que tudo isso ocorra.
concomitantemente às políticas de extermínio populacional
que nos levarão ao patamar das milhares de pessoas mortas,
o mundo vibra numoutra frequência.
diferente das passantes almas vagarosas
, que segundo eles,
vagam por entre os humanos ainda físicos.

perambulantes olhares e visitas
dissonantes com o mundo,
visto o planeta enterrado até o pescoço
em alardes sobre vacinas que modificam a hélice genética
e vermífugos para bovinos que garantirão a vida eterna.

informações vindas além ancoradouro de navios nas nuvens
dão conta que as mortes são compensações pedidas pelo criador de tudo;
atualmente feroz como no antigo testamento,
rotacionando um disco de bep bop e o Xou da Xuxa I em reverso
porém mantém trinta e três rotações.

sendo assim,
é preciso muitos cadáveres por negligência ou propositalmente
para que todo o universo vibre
na porra da rotação de um monte de gente morta que anda.

e) quinta estrofe:

deve ser por isso que o presidente do país se parece tanto com o pai do messias que pediu a seu servo matar o próprio filho. 

o pitch do toca discos anda quebrado
ruas da cidade numa segunda apinhada
escolha ser infectado ou morrer atropelado
escotilha não é um item disponível
escoltas armadas ainda não perfazem malabarismos ortográficos
para enxovalhar pessoas ao interior das residências
pois o trabalho está em empurrar
corpos às covas com espaçamento de um metro.


escolas fechadas servem pandemônio em senhas
setas direcionam todos ao mesmo lugar

na posição de saudação ao sol
suas retinas queimam suor paranoico

f) epílogo:

se o caminho é evolutivo
tal vistoso desejo de espiritualizados e psicólogos,
existe alguém que não foi avisado;
seja a mutação viral ou a humana.
é uma curva de contragolpe vivo
que esconde a real morte deste início de século:
a morte do verbo.
justo ele…
único poder de transcendência revolucionária que ainda respira.

se há uma pura e genuína mudança
como não colocar fogo nestas almas que vibram em outra frequência.
que não se importam
que nos querem mortos
em caixões nos carros do exército desfilando em filmes de história.

que querem o extermínio dos mais pobres,
dos sem água e sem esgoto;
simplesmente por acharem ter direito
ao desfile em seus carros alegóricos com catarro virótico.

usando uma fantasia de cidadania revestida de revólver carregado.



Subscribe to Fabio N.Biazetti

Don’t miss out on the latest issues. Sign up now to get access to the library of members-only issues.
jamie@example.com
Subscribe