Poema 179
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Text within this block will maintain its original spacing when publishedO ferro quente que marcou teu tornozelo lambeu minha córnea
um rancor imensurável, melhor dizendo, desmedido, tornou-se insolúvel
a memória insolúvel, melhor dizendo, imensurável, tornou-se infinita
tal qual velhice que retira um escalpo da nuca
o tempo cancro calcinando a solidão
trapaceia a solitude
enquanto esfacela a faringe como câncer.
Sentar em cristais a cada respiração sem norte
consumir certezas crescentes que se pensam coerentes
coração exumado em chagas permanentes
olhos sabor lata perfurados por tridente
estancar o sangue da ferida com saliva ácida
carcomendo o corpo pedaço por pedaço
das últimas folhas que lhe restam.
Fantasmas tornam-se tijolos
constroem modernas casas de alvenaria
conveniência enraizada na sandice
solidão amante interrompe a língua de um cachorro louco
que transpassa a memória da tua carne em brasa na retina
não existem mais cuestas, montanhas ou altiplanos esconderijos
apenas um corpo consumido pela linha plana da pele crosta lava
tudo ruindo enquanto finjo alegrias a desconhecidos.
Concreto quente e falsa moralidade emoldurados em caixões metálicos
eu babuíno a mover engrenagens que não se movem
como Sísifo masoquista punindo o universo pelo som do seu arrasto
a delicada arte entre afundar na lama e andar sob as águas.