Poema de Lado
um poema processo, primeira parte.

CHAVE LÉXICA:

Nota:
O professor Antonio Candido, defende a confluência de valores ideológicos, sociais e sistemas de comunicação que se transmudam em conteúdo e forma no seu ensaio “A Literatura e a Vida Social” (Garcia, 2019, p.111 apud Candido, 2010, p.40). Essa citação se faz importante para poder compreender as origens do “Poema de Lado”, que tem como genética a Poesia Processo. Candido neste ensaio conversa com os estudos feitos por Ítalo Moriconi em “Como e por que ler a poesia brasileira do século XX” (2002), os quais descrevem -no capítulo “Vanguarda Concreta”- o entrecruzamento da literatura, arte, cultura, e política nas expressões poéticas contemporâneas (Garcia, 2019, p.111). Tais pontos são importantes para iniciar o caminho de influência do poema acima.
O “Plano Piloto da Poesia Concreta” tinha como premissa que, antes da construção do poema expressar algo ao mundo exterior, deve comunicar sua própria forma; o que desencadeou a ideia do poema estrutura, funcionando como um mecanismo em que as relações entre as partes formam todo um movimento (Kavinski, 2014, p. 241). Essa leitura não linear do poema aumenta toda a intertextualidade da obra. Tal objetivo se concretiza quando o movimento escolhe seu maior inimigo, o verso formal. No manifesto escrito em 1954, surge pela primeira vez o termo verbivocovisual (expressão criada por James Joyce), prescrevendo a palavra ser retirada de seu processo de comunicação, e explorada em níveis semântico, sonoro e gráfico (Kavinski, 2014, p. 242).
Colocados seus preceitos teóricos, é possível dividir a Poesia Concreta em três níveis semiológicos (estudos dos signos da língua que servem a comunicação humana e dos fenômenos culturais, também de suas interrelações):
a) fenomenologia: estudava a subordinação da sintaxe (disposição das palavras na frase, da relação entre essas palavras, bem como das combinações e das relações lógicas das frases no enunciado) e sua significação através da percepção fenomenológica, que daria ao suporte utilizado suas relações semânticas com as palavras; por exemplo as palavras “Lua” e “Terra” dispostas de uma certa forma na folha de papel, dariam a esta o signo “céu”;
b) noigrandes estrutural: formada por Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, Ronaldo Azevedo, e mais tarde por José Lino Grünewald, trabalhavam a informação do poema à sua estrutura;
c) espacional: criada por Wladimir Dias Pino, era ligada à fisicalidade da comunicação e trabalhava com a poética do significante (imagem mental do signo) e ampliações do suporte e código.
Cada uma dessas vertentes trilhou evoluções diferentes. Os Neoconcretos renegaram os preceitos considerados engessados do Concretismo, criando em conjunto a artistas plásticos novas vivências, inclusive com a retomada da poesia e arte tradicionais, engajando-se em correntes populistas ao que denominaram arte para o povo, como uma resposta à vanguarda. O grupo Noigrandes através da poesia concreta produzida no Brasil, conseguiu repercussão e influência internacionais, aproveitando o clima receptivo mundial.
O terceiro grupo continuou sua pesquisas, ampliando a produção, o debate, e a formação de novos grupos espalhados pelo Brasil. Todo esse movimento à margem da poesia oficial e acadêmica, da mesma forma à margem da vanguarda, prepararia a ruptura qualitativa produzida pelo poema processo em 1967, que preconizava sua realização através da leitura da direção espacional (funcional) feita por Wladimir Dias Pino na poesia concreta (Coutinho, 2023, p.50).
Nota II:
Na segunda parte do “Poema de Lado” (quarta-feira-12/03/2025), que o constrói em totalidade, as características do poema processo e a outra influência à sua tessitura.
Referências Bibliográficas:
AZEVEDO, Wilton. Interpoesia: O Início da Escritura Expandida. 2009. Tese (Pós-doutorado em Poética das Hipermídias). Universidade Paris 8 – Laboratoire de Paragraphe. Paris. 2009.
COSTA, Felipe Marcondes da. Desencapados. Revista Latente. nº 4. ISSN 3085-573x. Dezembro 2024. Disponível em: <https://www.revista-latente.com/edicoes-anteriores>. Acessada em 08/03/2025.
COUTINHO, Afrânio. A Literatura no Brasil: era Modernista. São Paulo. Editora Global. 2023.
GARCIA, Elisa Moraes. Escritas e Leituras Contemporâneas: Histórias da Literatura. Porto Alegre. Editora EDIPUCRS. 2019.
KAVISKI, Ewerton. Literatura Brasileira: Uma perspectiva histórica. Curitiba. Editora Inter Saberes. 2014.