Poema O Ralo
Imagens rasterizadas com utilização das funções de cor, variáveis de posição e troca de imagens com utilização do teclado. Escrito no Processing4
O Ralo pode ser considerado um objeto estético, visto sua premissa ser um jogo. Entretanto, antes dessa elipse explicativa é necessário denotar o caráter coletivo do projeto.
Inicialmente a ideia era utilizar fonemas em relações sintagmáticas e paradigmáticas assimétricas (como ao longo do tempo, acompanhando meus trabalhos no site, fica claro ser ideia fixa), porém o ponto de partida não avançaria para além disso. A relação de palavras iniciais era a seguinte:
PERDER/PERDURA/PODER.
Quase engavetada a ideia, ao avançar o tempo -especificamente 2016 após a tenebrosa sessão que levou ao golpe de estado legislativo- me encontrava novamente no grupo de pesquisa e estudos da Cooperativa da Invenção da Casa das Rosas. O grupo era formado por novos rostos e pessoas mais conhecidas com quem já existia uma relação muito mais concreta e artisticamente produtiva (tínhamos construído uma revista e duas mostras de trabalhos desde 2015).
Um adendo neste ponto é que você pode encontrar alguns desses trabalhos, produzidos para a Cooperativa, lá no Portfólio.
Retomo:
Residiam também no coração deste grupo duas poetas, escritoras, artistas, e construtoras sensacionais que ainda hoje alumiam os caminhos da literatura e artes aqui na cidade de São Paulo. Uma delas é Rita Balduino, mestra em Poética da Visualidade, autora do livro O Feito Afaga o Gesto e uma das pessoas mais generosas que conheci na vida. Com trabalhos sempre em exposição, vale procurar seus poemas objetos pelos acervos dentro da internet e fora dela.
A segunda artista que participava deste grupo é talvez uma das pessoas mais talentosas que encontrei pelas andanças (antes de meus colapsos nervosos da pandemia) em grupos de estudo ou de artistas em oficinas pela cidade. Carmen Garcia além de poeta e professora, é uma artista que explora a materialidade da palavra com um nível de maestria que vi pouco pelas andanças. Mestra em Artes Visuais pela Unesp, sua pesquisa vai desdobrando a estética da palavra e seu uso em diversos meios, o que faz com que seus poemas sejam naturalmente um cruzamento entre literatura e artes plásticas. Além do projeto Amor Correspondido, hoje é uma das forças centrais na Galeria/Ateliê/Espaço Cultural Bananal Arte, um dos lugares mais legais dentro da cidade de São Paulo.
Tenho um trabalho em parceria com Carmen feito na primeira mostra da Cooperativa da Invenção -em 2015- chamado “I Love You!”, em que um ponto de exclamação feito de metal (ao ser tocado) explorava a audição e formas de oralidade da frase. Preciso achar material mais completo sobre o projeto para publica-lo por aqui.
Pois bem, em 2016 uma vez mais nos juntamos e produzimos “O Ralo”.
Explorando o cenário social e político do golpe parlamentar, resolvemos utilizar a palavra como elemento de ruptura do signo visual, através da criação de uma elipse interativa. O leitor deveria iluminar o ralo e encontrar as palavras que estavam acumulando na entrada do encanamento que leva seus detritos à rede de esgoto. Através do movimento do mouse, iria desnudando as intervenções poéticas, criando um processo de desvendar a sujeira acumulada e escolher limpar o ralo ou remover seus detritos substituindo-os por outros (através da troca de imagens apertando uma tecla). Todo esse processo criava uma linha do tempo cognitiva interacional, que ao longo das intervenções deixava o leitor ansioso pela limpeza do ralo ou rebentaria outros tipos de interação, como por exemplo fazer da interface posicionada no chão um palco.
O objeto em forma de jogo vai de encontro à ruptura do signo em constante evolução de sentidos, do mesmo modo que cria camadas de intertextualidade mais ricas através da ampliação dos significantes (visto o poema escrito por Rita possuir também signos visuais de cruzes).
Como toda obra exposta em uma mostra de pequeno porte, ficamos por conta de uma terça-feira pós chuva no dia da apresentação. Mas esse projeto é um dos meus orgulhos pessoais. Aqui, além das ideias compartilhadas, escrevi toda a programação do Processing4; que me atrevo chamar de um texto de escrita criativa visto criar um arco narrativo através da montagem de signos.
As imagens completas do poema, posso até aludir aqui as chaves léxicas dos poemas processos são essas:



