Primaveril
p. 17
Text within this block will maintain its original spacing when publishedEstou cansado de gente
gente a dizer inocente que não mente
ou não mostra os dentes
Cansado de gente
branca, rosa, amarela, azul, e vermelha
gente que não sangra
que vai só até certo ponto
vomita abandono
que não se move
Estou cansado de gente sem ventrículo
sem aorta
gente que não defeca
dessa bandalheira sem bandeira
que vive a se chupar
Cansei de gente que faz média
sem café, leite ou pão
que copia a cópia da cópia da cópia e grita invenção
gente que não se emociona com os acordes de No Aloha
que cambaleia uma cabala sem frescor da fúria
Estou cansado de gente
que quer controlar
O que se vê, se ouve e o que se trafica
Quero gente que escarre, grite e se abale
com o desenho animado
com holística revolucionária
com transcendência em lava
com cabelo cor de fogo, madeira, água, metal e terra
com a saliva do fellaccio
Estou cansado de gente que não ouve rádio.
Nota: Primaveril é de 2005, mais precisamente setembro. Eu sei de cor a data, pois o poema foi escrito da forma mais clichê possível (o que se reflete na temática) em uma mesa de bar com meu nariz completamente entupido. Eu sei, muita informação… mas a vida não é feita só de elevadas almas límpidas e sóbrias. Eu resolvi, mesmo um clichê, postar o poema como parte integrante do livro, pois essa temática acabou tornando-se de certo modo uma tônica dentro das redes sociais; sobre uma sociedade de performance pretensamente meritocrática e insípida ao final das contas.