Rebentação
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Text within this block will maintain its original spacing when publishedUm cinza domingo
lembrança de única manhã
grito que persiste em sangue, placenta e ódio
rejeição amalgamando paredes
restos daquele dia;
quais folhas presenciaram
o fígado ensopado, o vômito na faringe.
Carma infinito, seco soco perpétuo
desde os primeiros movimentos do corpo
envolto pelo cordão psicótico no pescoço
enrolando o choro metal
desatando pulmões voadores
a inércia coronária grita
rasga o hematoma pela pele roxa.
Se nasce só mediante um fórceps
cravejado de caninos amarelos
com o mundo em revés
desconexão tanto quanto desespero
há algo errado desde o começo.
Médicos mecânicos e seus instrumentos
primeiro ato do deus maquinaria
inadequação tecnológica cravada no abdômen
metal acetileno luz nos primeiros diretos no rosto.
Expelido sem querer, nu, coberto de lava morta
expulso no mundo que não é seu
mecatrônicos fetos de engenhosas traquitanas disfuncionais
internos de um abismo lácteo
envoltos em óleo, fuligem, e vapores industriais
ninados por uma uma horda de demônios interioranos
asfixiados nas mais variadas formas de beijo.
Escleras reluzindo eletrocardiogramas
uma última geração de crianças sem pai
antes de uma nova primeira
retroceder ao útero seria indigno
mesmo esse nascimento involuntário;
o cordão se corta, a cabeça pendurada pelos pés
cuspir o líquido amniótico pelo nariz
como se fosse uma bala.