Saliva
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Text within this block will maintain its original spacing when publishedAs pessoas no metrô andam doentes - Tossem e espirram filamentos ao vento
Tormento esse não suficiente
ando dissolvendo-me por entre protozoários macabros de terno
portadores de maletas espião
um estouro insolúvel tal qual a mitocôndria que mira flores
Talvez essa existência seja hipocondria
a sofreguidão, esfregaço
a lâmina lúdica e a morte uma infestação de lama
Chuva aos berros na janela cavou mais fundo través das nuvens
claudicando por vênulas nas folhas alagou de melancolia
as arestas restantes da luz vítrea
Usaria tua pele como manto
tuas linhas em tela seriam lâminas
actina lúcida recortando meu ventre
a salivação que fica única, cinza e assombrada em sexo, sangue e laceração
amarração em cordas
Paro a pensar como esse suor seria salvadora transfusão
Entretanto as pessoas andam doentes no metrô
Desilusão fúnebre dos passantes contagia em conta gotas
a alma de quem próximo deambula
[e]
se perde a pensar no soneto que não vem
Inércia do plástico dessa exata cor que vês quando lês
ao mesmo tempo em que teu cheiro veritas nos meus nódulos metatársicos
Afoga minha nuca no sofá
e mesmo isso não é poema nem soneto verso
sim único piso frio que ofereço ao mundo
como sempre conotas
Mal sabes que a tua luz salva desses detalhes de íntimo cárcere
que este desassossego não é lápis e o podre permanece preso solitário
dentro duma caixa com cadeados só aberta na hora do exorcismo