Tempo

um poema provocado que deve entrar em Descarrilo Cotidiano, mas por enquanto ficará na página central.

Tempo

Text within this block will maintain its original spacing when publishedMe vi no tempo
Movendo lábios na tempestade dos olhos

Me vi no tempo
Escavando centésimos por entre as pedras
Nuvens de cascalhos no leito do rio

Me vi no tempo
Estática reversa molda esculturas de lama
Em meus pés segundos

Me vi no tempo
O veneno que escorre nas tuas bordas
Oleava as trovas junco d’águas
Macerando minutos que tornar-se-iam desejos

Me vi no tempo
Na pele esculpindo horas tormentas
Dos poros límpidos de lama
Mosaicos a mover ósculos caleidoscópicos

Me vi no tempo
Do teu corpo enganando o destino dos dias
Salgado pela corrente que me engolia

A água que emoldura pedaços de sonhos
Se move pouco durante os anos
Mas o vento insiste em roer o tempo
Tornando enlace o que seria tormento
Os corpos submergem entranhas
Se fundem pelos entrecantos das pedras
No alumínio dos centésimos em construção
Renascem inteiros rasgando minhas mãos



Nota: esse poema é inédito e nasceu de uma provocação feita pela autora Sarah Munck Vieira durante uma conversa sobre uma poesia sua chamada “Pedra Sou”. Em nossa conversa discorremos sobre como a construção das imagens -dentro dele- levava o leitor diretamente à uma montagem de planos qualitativa, a qual ao invés de construir ações em sequência (como no conceito de “cenas grávidas de outra cena”, descrito por Saverni como uma engrenagem clássica onde os personagens agem de forma casual e lógica (Johann, 2015, pg. 80, apud Saverni, 2004), existe uma imprevisibilidade pela montagem em que o signo só ganha significado através de uma construção de estrutura viva, cuja natureza do signo se ajusta através da linguagem e sua natureza então se manifesta (Tarkovski, 2023, pg. 136).

Sempre dou como exemplo desse emaranhado teórico a primeira cena do sonho em “O Espelho”, do próprio diretor russo, onde o signo apresenta seu significado quando do todo construído (na forma como foi montado) dentro da relação cognitiva interacional entre enunciador e receptor.


Nota II: Você pode comprar o livro da autora, O Diagnóstico do Espelho (recomendadíssimo por demais, se me permitem) NESTE LINK AQUI

O poema “Pedra Sou” de Sarah Munck Vieira:

Text within this block will maintain its original spacing when publishedpedra sou

Ouvi um barulho
junto aos cascalhos
lançados ao chão:

pedra sou
da crueza insossa
verti o veneno

O tempo transcreve a lama
na rachadura da rocha
com digitais místicas
mitigando terreno

água sou
da saliência
enganei o destino

Não subestime a pedra
pois em dias de ternura
e em noites de tormento
renasce escultura.


Referências Bibliográficas:

JOHANN, Ana. A Construção poética do roteiro. Curitiba. Editora UTP. 2015.

TARKOVSKI, Andrei. Esculpindo o tempo. Editora Martins Fontes. 2023.

VIEIRA, Sarah Munck. O Diagnóstico do espelho. Goiânia. Editora Mondru. 2023.


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