The 80's Anarco Revival Revisited

poesia intersignos como continuação de uma poesia tecnológica

The 80's Anarco Revival Revisited

No prefácio do livro Permanecer Bárbaro, escrito por Louisa Yousfi, o professor Acuam Oliveira escreve:

Os bárbaros, em sua barbárie, permanecem indefinitivamente no quintal, sem convites para sentar-se à mesa […] toda a performance não branca será lida como uma paródia tosca e civilizatória […] Diante desse cenário de pesadelo, vendido como melhor dos mundos, o Ocidente tem oferecido aos bárbaros duas opções. A primeira, é a saída conservadora, que faz dos marginalizados e proscritos vítimas do racismo, xenofobia e das forças repressivas do Estado, que os enxergam como o grande outro imoral e abjeto […] A outra é a postura republicana e humanista da esquerda liberal, em que os bárbaros são convidados a sentar-se à mesa, desde que estejam dispostos a se comportar […] Ao final do processo, o bárbaro - agora integrado - descobre que as promessas da modernidade sempre foram mais ilusórias que reais, e que respeitabilidade e civilidade são apenas formas particulares de domesticação, decorrentes da internalização do ponto de vista do opressor. (Oliveira, 2025. pp. 9 a 10).

The 80’s Anarco Revival Revisited é a continuação do poema de quase mesmo nome lançado em 2015. Dez anos é um bom tempo para perceber como envelheceu uma criação poética, melhor ainda se render alguma coisa.

A poesia original foi exibida na exposição CTRL + Verso da Cooperativa de Invenção da Casa das Rosas e consiste em um jogo de tabuleiro cujas peças são fonemas.

Toda a formatação da obra, relacionava-se com a época.

Assolados por um roubo ideológico nas ruas e o crescente discurso fascista correndo pelas sarjetas, não faltavam dedos apontados nas caras uns dos outros.

As conspirações sobre Sininho terrorista de Soros, o Não Vai ter Copa enquanto havia Copa, a perdida entrevista dos líderes sem catraca no programa Roda Viva, as teorias conspiratórias de institutos neoliberais estadunidenses financiando ongs de esquerda, que eram tink tanks para benefício financeiro de seus participantes; tudo era motivo.

Obviamente, descobriu-se depois que essas empresas estufas ideológicas injetavam dinheiro no país, mas em organizações como o MBL, Vem Pra Rua, e até (desculpe jogar tanto excremento em sua tela) Brasil Paralelo.

Não que o sebastianismo da esquerda liberal fosse educado, mas queimar o inflável da Coca Cola na Copa do Mundo sempre foi mais Cinema Novo que Nouvelle Vague.

E tirando Agnès e Truffaut, a Nouvelle Vague que se foda.

Ulrike Marie Meinhof e a RFA eram mais vanguarda.

Lendo os textos de Errico Malatesta à época (mesmo que o anarco italiano não seja considerado o maior ideólogo de todos, pois Kropotkin é mais gato), deparei-me com um período que considerei ser relevante.

Refletindo sobre àquele ano (e uma específica terça, ou quarta, ou quinta; não consigo me recordar pois agora minha memória funciona apenas com notas no Obsidian), provavelmente após chamar Geraldinho Pinheirinho por nomes imensuráveis pela tentativa de privatização da Sabesp (onze anos depois seria entregue quase de graça pelo fascista chamado Tarcísio de Freitas), tinha uma absoluta certeza:

Os movimentos organizados teriam a ideia sedimentada, após as vivências de 2013 e 2014, que o centro não seguraria o tsunami de lixo tóxico de extrema direita, que já recuara em quilômetros o oceano desta princesinha do mar de asfalto.

Enfim, diz Malatesta:

[…] cada esforço tendendo a elevar a consciência popular e aumentar o espírito e solidariedade, e de iniciativa, assim como igualar as posições, é também um passo na direção da Anarquia (Malatesta, 2008, p. 118)

O que sempre me chamou atenção em Errico foi sua certeza de que os anarquistas precisavam investir sempre na linguagem e na oralidade, como formas de aperfeiçoar a revolução, e, num mesmo ato, disseminar os ensinamentos.

Linguagem. Oralidade. Língua falada. Língua escrita.

Continua Errico:

Não somos a favor da democracia, entre outras razões porque, cedo ou tarde, ela conduz à guerra e à ditadura; também não somos pela ditadura, entre outras razões porque a ditadura faz desejar a democracia, provoca seu retorno e tende a perpetuar esta oscilação da sociedade humana entre uma franca e brutal tirania e uma pretensa liberdade, falsa e mentirosa. (Malatesta, 2008, p. 138).

A escolha dada aos bárbaros é sempre extermínio ou domesticação.

Sendo assim, a primeira versão de T80AR versava sobre como seria necessário perpetrar a linguagem em sua forma mais basal possível, no formato de bordão popular, com entradas léxicas mais basais ainda. E o que é mais primitivo que um bordão anarquista dos anos 80 que tem como ensinamentos pão, tesão e autogestão.

Além dos signos verbais, a oralidade também é parte importante dentro do poema original. Na sua primeira parte, em que as peças se movimentam, as vozes cantam os fonemas. Marcham, sempre movimentando-se à frente. Ao futuro em que tomariam o outro lado do tabuleiro, formando o slogan. Exatamente nesse momento os fonemas unem-se também oralmente e transforma-se em uma voz coletiva, forte e coesa.

Desejo, necessidade, vontade, necessidade, desejo,necessidade, vontade, necessidade¹.

E não só um slogan primal, mas jogo coletivo. Batalhão bombardeando posição com tesão, comida e coletividade. Desde 2015 havia um problema básico de materialização estética dos desejos (o que ficou escancarado quando pessoas hiper mobilizadas em tamanha luxúria ideológica, pulavam na frente de caminhões, rezavam para pneus ou clamavam a volta da ditadura).

O pobre de direita, o tio maluco do Whatsapp. Todo mundo ganhou apelidos que em sua maioria eram nada mais do que aporofobia e racismo, disfarçados de crítica social foda, também conhecida aqui em São Paulo como:

Voltaire de Higienópolis²,

ou os Bakunin do Tatuapé.

A gente não quer só comer, a gente quer comer, quer fazer amor [..] ¹

Mobilizar desejos. Quem fez isso, e fez bem, matou 700 mil pessoas dentro de uma pandemia. Outra vez mais, recorro ao professor Acuam Oliveira:

Não se trata de convidar à mesa no sentido de endossar as características conservadoras, mas de entender que: o povo, está daquele lado […] o povo não, isso foi horrível […] existe uma demanda de radicalidade antissistema e que se coloca nos caras que, por exemplo, invadiram o congresso nacional no oito de janeiro […] e a gente fica falando “defendendo as quatro linhas da constituição”, “que horror e não sei o que”, sendo que a esquerda radical dizia há pouco tempo atrás que a gente deveria invadir o congresso e cagar, exatamente como esses caras fizeram […] eles tiveram a coragem de fazer; e a gente não. O que ela (a autora) está propondo, é que a gente precisa a voltar esse tipo de coragem, se não a gente está fodido e mal pago.³

Mobilizar desejos para se pensar um novo futuro. Um futuro em que o lado de cá, busque no chão, no basal, no mais primal, no mais bárbaro, tudo o que demanda vontades. É preciso entender onde está o tesão, para que se prove o pão, misture a massa, e se renove tudo em coletividade de autogestão.

Malatesta e Yousfi sejam muito bem vindes.

T80AR Revisited é uma continuação quase óbvia do poema tecnológico, desta feita, utilizando os preceitos dele; sim, para a surpresa de ninguém:

Philadelpho Menezes.

Essa segunda versão tem na poesia intersignos sua semântica. Os signos visuais e verbais estão completamente rompidos de todas as formas e na direção do solo. A montagem também é direcionada para ampliação dos significados e com sequências de cenas grávidas de outras cenas, ao mesmo tempo que os significantes ganham novas imagéticas.

No capítulo A Impossível Comunhão das Lágrimas, escreve Louise:

“O céu nos vingará”. Enquanto os aviões atingiam as torres gêmeas do World Trade Center em 11 de setembro de 2001, essa frase ressoou em mim. Na véspera eu tinha ouvido isso da boca do meu pai. “O céu nos vingará”, ele disse comentando o telejornal. Não sei do que se tratava, mas me lembro dessa profecia paterna, precedida dessa frase: “Os estadunidenses são a pior coisa que aconteceu na Terra”. No dia seguinte, dia do atentado: “O que foi que eu disse!”. (OLIVEIRA, 2025, p. 15 apud YOUSFI, 2025. p. 63).

O poema original:

Marielle Franco(MC Carol part. Heavy Baile)Vocês querem nos matar, nos controlarVocês não vão nos calarMesmo sangrando a gente vai tá láPra marchar e gritarEu sou Marielle, Cláudia, eu sou MarisaEu sou a preta que podia ser sua filhaSolidariedade, mais empatiaO povo preto tá sangrando todo diaEu não aguento mais viver oprimidaNesse país sem democraciaEu tô me sentindo acorrentada, desmotivadaEu também naquele carro fui executadaEu tenho ódio, pavor, eu sinto medoA escravidão não acabou, estão matando os negroEstão cansado de ser esculachado, roubadoOprimido, preso, forjadoPreto aqui não tem direitos, não tem direitosMulheres pretas aqui não têm direitos, não têm direitosTemos que aguentar a dorSou obrigada a parir o filho do meu estupradorO poder é opressor, manipuladorEles batem até em professorNem sempre eu sou tão forteMas vou tá lá gritando contra a morteGritando contra o poder machista brancoPresente hoje e sempre, Marielle FrancoPreto aqui não tem direitos, não tem direitosMulheres pretas aqui não têm direitos, não têm direitosPreto aqui não tem direitos, não tem direitosMulheres pretas aqui não têm direitos, não têm direitos
Calibre Grosso (MC Carol)Espera que daqui a pouco eu vou passar de novoEu vou roçar gostoso no baile doEu quero calibre grosso no baile do SalgueiroEu quero calibre grosso no baile do MartinsEu quero, eu quero, eu queroEu quero fuder com força, esses novin' tão carinhosoQuero minha buceta ardendo, transar contigo é dolorosoEu quero fuder com força, esses novin' tão carinhosoQuero minha buceta ardendo, transar contigo é dolorosoSe sua mulher pegar, vai me bater de novoSó posso te instigarCê tá aí, tá perigosoMas sua mulher é ossoTá me olhando de rabo de olhoJá botou a mão, tá me amostrando o .38Mas sua mulher é ossoTá me olhando de rabo de olhoJá botou a mão, tá me amostrando o .38Tá me amostrando o .38Tá me amostrando o .38Tá me amostrando o .38Mas sua mulher é ossoEspera que daqui a pouco eu vou passar de novoEu vou roçar gostoso no baile doMe chama de putaDe filha da putaComendo com forçaPedindo minha bundaGostoso, me chupaMinha buceta é tuaJá tô toda nua no meio da ruaPutaPutaPutaPutaFala gostoso no meu ouvidoAgora olha e aprecia meu rabo descendo e subindoMeu rabo descendo e subindoFala gostoso no meu ouvidoAgora olha e aprecia meu rabo descendo e subindoMeu rabo descendo e subindoMeu rabo descendo e subindoMeu rabo descendo e subindo

Notas com samba no pé:

  1. ANTUNES, Arnaldo, BRITTO, Sérgio, FROMER, Marcelo. Comida. Jesus Não tem Dentes no País dos Banguelas. Produção: Liminha. WEA. 1987.

  2. VIRA CASACAS. Brasil Soberano. Episódio 442. podcast. 2025. Disponível em: < https://viracasacas.wordpress.com/2025/07/29/442-brasil-soberano/ >.

  3. OLIVEIRA, Acuam. Bárbaros. Vira Casacas. Episódio 443. podcast. 2025. Disponível em: < https://viracasacas.wordpress.com/2025/08/05/443-barbaros-com-acauam-oliveira-e-amauri-gonzo/ >.



Subscribe to Fabio N.Biazetti

Don’t miss out on the latest issues. Sign up now to get access to the library of members-only issues.
jamie@example.com
Subscribe