Títeres
poema / não ficção
Text within this block will maintain its original spacing when publishedNo dia da minha morte não ouvi o bater da porta
e para morrer é preciso selar as portas
quem me viu morto garantiu que havia uma poça
eu mesmo acordei seco
eles garantiram que era sangue.
- não seria a primeira vez
que testemunhas trouxeram detalhes tarecos
enquanto inabitado estava meu corpo,
um outrora qualquer nas escadas
[mesmas que me serviam de esconderijo]
perguntou-me como é que aguentei tudo aquilo
tudo aquilo o que
repliquei
se eu estava morto
suspenso
não pensei
mas senti as entradas das cordas na minha nuca
nos braços
nas pernas
sobrevivência de títeres.
no banho o lombo roxo
puxo por pequeno cabouco
o fio que resta dentro da coluna
a memória alaga cada qual dos meus forames
como se encharcasse de lágrimas um ponto de ônibus;
-vermelho estranho aos handroanthus-
se hoje corro
é porque naquele banho
me vi voando por entre ipês
enquanto morria a pé pela primeira vez
no chão
descalço
cóccix chutado
cabo de vassoura arrebentado
a vértebra atropelada por uma carroça
o cuspe
a troça
o muro
a cabeça esmagada no concreto
foi relato juramentado
testemunhado
falado por meses a fio.
eu mesmo não estava lá
pois os pés pêndulos pênseis
deixaram meu corpo no ar
sem memória a não ser marcas
navegando ao porto que restava
por entre maré de flores
roxas, amarelas e rosas.
era essa a lembrança
em meus dentes
no dia que esqueci de trancar as portas
pois para finar-se é preciso ter método
e chaves únicas
não adianta gritar depois
meu deus me deixe morrer pela segunda vez
se o claviculário da vida lhe disser não
e vai
porque as sombras são aparições
permanecerão vivas pelos dias
mas nascem de árvores sem flores
com fios podres
longe dos galhos que te suspenderão
aos ancoradouros das nuvens
que te salvarão.
Nota: Títeres é a última parte do experimento de não ficção. Poderia até usar a definição conto para descrever toda a elipse dorsal dos textos, visto o tema ser a revisão de um trauma feita por um jornalista já adulto. Entretanto, tenho algumas discordâncias relacionadas à própria definição de gênero literário que definiriam esse contexto geral.
É sobre trauma, narrado em primeira pessoa, mas não é só isso. Também contém elipses laterais que falam sobre construções urbanas, construções humanas e uma semântica social, que eu diria estar em voga nos dias de hoje. O extermínio é uma forma avançada de bullying, e este não é construído por um adolescente fluorescente.
Dividido pelos anos da elipse principal, os textos seguem essa ordem:
Matéria de cunho científico que inaugura a elipse, publicada pelo jornalista provavelmente na revista estilo Superinteressante onde trabalha.

O conto que abre a escavação sobre o trauma do jornalista.

A crônica de viagem que leva o jornalista ao revisitar suas origens.

O perfil biográfico do agressor como uma espécie de redenção às avessas do jornalista.
E por fim, o poema de hoje que fecha a elipse com um pequeno conto sobre morte.




