Do tempo
experimentos de linguagem poética com diferentes signos na tentativa de modificar o tempo.
Título: Do Tempo
I


II
Chave Léxica:

Nota: Eu escrevo para salvar uma casa construída com madeiras de tantas falhas, que em qualquer chuva mais árida, se afoga. Uma casa que não é formada, mas é forma de algo que resiste ao mesmo tempo que inexiste. Escrevo porque esta casa deve ser destruída completamente por dentro de um canal surrealista e reconstruída com milhares de janelas abertas, deixando-se inundar por todos os fonemas em mares de correntes inconstantes, os quais destroem acepções e certezas do mundo. Um lugar para além da destruição, que possa ser morada de todas novas realidades navegadas por esse mar libertário. Escrevo para salvar essa casa; mesmo que apenas sua destruição completa restaure cada célula pedicular da madeira em asas de casa mata.
Dentro dessa premissa, o tema do meu trabalho enraizasse em definitivo quando termino de escrever -no ano passado- o artigo sobre poesia intersignos, mais especificamente sobre a obra de Philadelpho Menezes. Intitulado Quando o Futuro é Previsto em Ruptura de Linguagem, além do prêmio de melhor artigo de 2024, também alavancou um questionamento tal qual chuva intermitente, reverberando goteiras infinitas no peito. Quando utilizei a montagem cinematográfica como modelo de linguagem para conectar a intersemiótica da poesia de Philadelpho aos poemas construídos no século atual (mostrando assim quanto a poesia intersignos foi uma das últimas vanguardas do século XX), me vali de duas semânticas distintas relacionadas ao tempo:
A primeira baseada nas montagens de Dziga Vertov e Sergei Eisenstein que preconizavam a movimentação das imagens transmitirem as ideias (Sijll, 2017, pg. 13) e as câmeras não apenas meras registradoras, pois seus fotogramas é que levariam a história adiante evoluindo os personagens, já que não existiam diálogos. Esses cineastas entenderam todo o potencial da linguagem do cinema por conta de possuir como signo uma fotografia em movimento, o plano, a cena, o que serviu como alavanca de inovação na maneira de se escrever uma obra, adicionando-se mais elementos dramáticos. O tempo dentro desse conceito corre de maneira linear.
A segunda, levando em conta a montagem qualitativa criada por Andrei Tarkovski, preconizava os quadros quando do processo de montagem, fazendo com que todo esse tempo impregnado dentro das cenas se torne uma estrutura viva, visto que toda a forma de arte envolve um sistema de montagem como forma de seleção que ajusta a linguagem e suas peças. Como conclui Andrei, a natureza essencial do material filmado manifesta-se através do caráter da montagem (Tarkovski, 2023, pg. 136). Nesta teoria o tempo torna-se moldável, impregnado de uma poética que promove a ruptura com o signo, visto o mesmo não correr de maneira linear, e pode ser expandido ou reduzido de acordo com a montagem do signo. O que torna essa estrutura uma expansão tanto quanto uma ruptura do significado.
A partir desses dois conceitos, a pergunta natural é: como moldar o tempo dentro da literatura envolvendo o signo como se faz no cinema.
É possível?
Será que existe uma forma de moldar qualitativamente o tempo dentro do signo verbal, expandindo seu significado, rompendo com sua estrutura para criar uma montagem ampliada em qualidade e na relação intertextual interacional entre enunciador e receptor?
O exemplo mais claro -que também uso de saída- é o livro de Georges Perec, “O Homem que Dorme”, em que poucas páginas levam uma enorme quantidade de tempo para que se consiga ler. Do mesmo cinema, o filme Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles ou o documentário Notícias de Casa, de Chantal Akerman, são exemplos onde a montagem do signo amplia o tempo.
O poema Do Tempo segue essa linha de experimento, onde construo uma montagem com os signos verbais, visuais e sonoros utilizando o tempo como variável. Inicialmente utilizando o conceito de intensidade e luminosidade do signo visual, amplia-se o tempo da intertextualidade entre enunciador e receptor, já que a utilização de apenas duas cores cria uma montagem poética que parece utilizar-se de quatro tons diferentes, modificando a forma como a onda de cor percorre o espaço. Em seguida, na imagem abaixo, as cores diferentes dos signos verbais dão a ilusão de todas as letras estarem com a mesma cor, diminuindo a relação do tempo com as características do signo visual. A montagem dos signos verbais também amplia e contrai o tempo da interação gênero textual - leitor.
Na segunda parte, o signo sonoro passa por um processo de montagem onde o tempo sofre rupturas em seu significado por conta da ampliação da onda sonora ou da sua redução com os efeitos de inversão, ampliação e distorção. O signo visual aqui faz a ligação com a Chave Léxica do poema, conceito utilizado inicialmente nos Poemas Processos; neste caso uma ferramenta de transgressão do formato, mesmo utilizada como forma de ampliar o sentido do poema.
Referências Bibliográficas:
ALBERS, Josef. A Interação das Cores. São Paulo. Editora Martins Fontes. 2009.
SIJLL, Jennifer Van. Narrativa Cinematográfica: Contando Histórias com Imagens e Movimento. São Paulo. Editora Martins Fontes. 2017.
TARKOVSKI, Andrei. Esculpir o Tempo. São Paulo. Editora Martins Fontes. 2023.