Nada

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Nada

Text within this block will maintain its original spacing when published- Você não é bonito o suficiente para ficar com essa cara séria o tempo todo. Gente feia pelo menos ri para disfarçar o estrago.

- Tira esse óculos que aqui nessa casa macho se constrói assim, com mão na cara até ficar inchada e deixar de ser otário.
 
- Filho, não se preocupe, eu queimei meu tornozelo com o ferro de passar, mas é porque eu te amo demais.
 
Olá, meu nome é Otávio, e eu sou nada.

Durante muito tempo eu tentei ser tudo. No quintal da casa de madeira -a única da rua- pois não havia dinheiro para o tijolo, eu era dono do maior avião do bairro. Um velotrol servia de base a um cachorro de pelúcia velho que servia de assento ao aviador mais veloz daquelas redondezas. Queria alçar tudo o que o voo daria, mas ainda assim o chão era morada e as goteiras dentro da casa alumiavam poças d’água, reduzindo os sonhos ao nada.

Anos depois, já cercado de tijolos, o semi luz corredor era palco em que desfilava meu tudo. O médico, que salvou a vida de todos os amigos imaginários e das paixões imaginadas feridas em batalhas campais nos planetas distantes caminhava ao lado do tenista internacionalmente conhecido, com mais troféus do que raquetes invisíveis; morava ali também o bancário que na realidade era um detetive particular e ajudava a elucidar as mazelas do bairro. Saltava pelos olhos o baterista que construiu seu próprio instrumento utilizando bambus do cesto de roupas e tocava em concertos cada vez mais lotados.

Tudo, eu era tudo, mas nunca ninguém soube de nada. Era um tudo invisível, escapista e trapezista. Cozinhando desvios dos espancamentos e álcool. O jornalista cultural que cobria os shows do baterista morreu sem nada, toda vez que uma revista de cinema trazida para casa era rasgada. No existir real, a imposição do ser aquilo que não se queria, ser tudo aquilo que o homem de bem queria. Mas daquele tudo, eu não tinha nada.
 
Mais tarde, tudo ficou trancafiado. Tanto viveu deste jeito que o tempo corroeu uma hipotenusa de libertação através de controles assimétricos mentais, paranoias, contenção de danos com drogas, transtornos obsessivos compulsivos, e todo aparato necessário ao calar das vozes inequivocamente. Um dia, em uma semana, tão trancado ficou que tentou ir com tudo ao nada definitivo. Lugar cuja viagem é apenas de ida e não se volta, a não ser pela crença em todas as outras vidas.

Neste dia meu perceber exato e desadornado de mistérios ficou límpido. Eu não era nada, e que por ser nada é que eu poderia tentar tudo.

Toda a vida buscando ser tudo, lamentando todo esse nada, quando na verdade tudo isso era uma tela em branco em que o filme poderia ser qualquer filme.
Não precisava ser tudo, era só caminhar na direção dele. Deixar o nada navegar esperança em tentar tudo aquilo que eu nasci para ser.
Um nada, tal qual folha alva repleta por todas as possibilidades de vida.

Nota: esse texto foi escrito na semana passada durante as aulas da pós graduação. Coloquei-o na seção do livro pois penso funcionar melhor como prosa poética, no papel de transgressão do gênero.



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